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Bonito e agridoce, "The Worst Person in the World" fala sobre os momentos e sentimentos da vida que nos marcam para sempre.

Bonito e agridoce, “The Worst Person in the World” fala sobre os momentos e sentimentos da vida que nos marcam para sempre.


Y“You seem to be waiting for something. I don’t know what.”

The Worst Person in the World, filme de  indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, não aprofunda muito em nenhuma das relações de Julie (Renate Reinsve), sua protagonista. Essa condição da narrativa é muito coerente porque, assim como os que estão em sua volta não a conhecem direito, nós (enquanto espectadores), também só vamos conhecê-la através de fragmentos.

Gosto muito que a narrativa é dividida em capítulos que começam e terminam do nada, demonstrando bem essa incapacidade de completude da protagonista que pula de obsessão em obsessão sem terminar nenhuma delas e fugindo quando as coisas ficam difíceis, como Aksel (Anders Danielsen Lie) aponta na cena no hospital.

Acrescentando à direção de , Kasper Tuxen faz um trabalho incrível com a cinematografia de The Worst Person in the World: é sóbria, crua e tem vida e movimento quando precisa ou é necessário. Muitas cenas são gravadas com o primeiro plano desfocado, o que nos dá a sensação de distância, de estar espiando a vida da protagonista de longe, vendo ela por portas entreabertas, sem entrar no seu mundo totalmente.

De alguma forma é quase impossível não se identificar com Julie. Provavelmente toda pessoa que está nos seus 20 e poucos – ou tantos – anos, já se sentiu a pior pessoa do mundo, crença que beira ao narcisismo visto que o maior problema da protagonista nada mais é do que a insegurança de se comprometer (seja em relações amorosas ou em profissões).

Se comprometer, é delimitar, é abrir mão de um tanto de possibilidades que a gente acha que tem quando não se compromete com nada. Essa é, talvez, uma das maiores ilusões geracionais que nós, jovens de 20 e poucos anos, ainda acreditamos. A ilusão de que não se comprometer com nada é o epítome da liberdade e espontaneidade do inesperado acontecer.

Ver os anos – e capítulos – se passando sem se sentir dona da própria história é um sentimento quase que inevitável quando a gente não se conhece direito. Nossa sociedade como um todo tem regras não escritas de metas que você deve atingir até uma certa idade e, caso contrário, você é um fracasso e a gente sabe do resto.

Há uma cena específica que me toca muito e, de alguma forma, demarca quando a protagonista de The Worst Person in the World decide assumir a direção da própria vida: quando ela está prestes a terminar o namoro com Aksel (a única pessoa que a conhece e entende bem, a ponto de ela fugir disso e consequentemente fugir de uma relação profunda e significativa). “Nobody communicates like we do”, ele diz para ela após o término e somente no final da projeção entendemos o peso e realidade dessa frase.

Contudo, há um instante em que somos convidados a entrar na imaginação dela, onde ela sai correndo pela cidade enquanto todos estão congelados, vai até o lugar onde a sua nova paixão trabalha e finalmente faz o que tanto queria e fantasiava sobre, mas não tinha coragem.

Se comprometer é ter coragem e, nesse momento, ela toma a decisão de terminar e ir atrás do que faz sentido para ela no momento, mesmo que depois The Worst Person in the World dê a entender que a relação com o novo namorado era um grande escapismo do seu outro relacionamento sério. Por toda a maneira como eles se conhecem, parece que é algo mágico, mas é muito fácil ter um one night stand mágico e fantasiar sobre isso pelos próximos meses.

Com o passar do tempo e o desenrolar da narrativa, vemos que quanto mais eles convivem e ela o conhece, mais percebemos que ela não estava apaixonada por ele, mas sim pelo que ele representava, pela ideia de relacionamento que ela queria ter.

Ao final de The Worst Person in the World, o sentimento que fica é agridoce e reconfortante. É um abraço quentinho de uma amiga que te conhece há anos e está ali ouvindo seus problemas só para te apoiar, não para solucioná-los.

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