Crítica / “Coringa”

Crítica / “Coringa”
[tempo de leitura: 4 minutos]

Coringa, novo filme de Todd Phillips é um recado para o mundo de hoje. Um mundo doente em que a alegoria de Gotham para as contradições do liberalismo nunca pareceu tão crua e atual. Enquanto a violência e a sujeira se acumulam nas ruas, aqueles com grande poder, amedrontados, se perpetuam no topo. Na lona dos tempos de pandemias neurocognitivas, surge a necessidade de uma profunda reflexão. Estamos diante de um espelho, com remédios, maquiagens, revólveres e piadas de cabeceira. Quem somos nesse grande teatro, afinal? Arthur constitui uma parte desesperada daquilo que o espectador, em tempos modernos, gostaria de saber, atendendo pelo nome de um dos vilões mais icônicos da indústria cultural.

Vivendo com a mãe, Penny, num apartamento suburbano, Arthur Fleck (Joaquim Phoenix) é um comediante stand-up e animador em contextos filantrópicos ou publicitários. Sofre com o deboche na rua e admite problemas mentais enquanto não recebe o devido acolhimento psicológico. Quando é presenteado com uma arma, suas intuições mais viscerais começam a interagir. Permeando esse cenário, existem as figuras de Murray Franklin (Robert de Niro), um apresentador de TV cujo programa é o preferido de mãe e filho, e ThomasWayne, um magnata que pretende assumir a prefeitura de Gotham.

Joaquin Phoenix é um ator cuja versatilidade o transformou num verdadeiro “coringa” para diretores como Spike Jonze, Ridley Scott e Paul Thomas Anderson explorarem de modos diferentes (e igualmente eficientes). Encontramos aqui o tipo de entrega que reverbera em seus colegas de elenco, semelhante ao que fez Heath Ledger em sua obra derradeira. O talento de Phoenix é fundamental para tornar o vilão do Batman algo mais do que uma caricatura ou uma peça de cosplay, assumindo gradualmente uma essência terrorista autodepreciativa que conversa com as sequelas sociais contemporâneas. Aqueles menos preparados podem imprimir uma faceta heroica ao personagem, o que faz dessa obra uma peça sensível e dotada de certo perigo enunciativo.

Eu não falaria disso se não vivesse em tempos em que o controle de armas é excessivamente relativizado e a exposição social se encontra cada vez mais aguda, com resultados imprevisíveis e exponenciais. O diretor Todd Phillips, ao lado do roteirista Scott Silver, não economiza ao retratar os sintomas mais corrosivos de uma depressão. Seu protagonista não cultiva muitas esperanças e, durante uma consulta com o serviço social, revela tendências suicidas (“Queria que minha morte fizesse mais ‘sentido’ que a minha vida”, num jogo de palavras mórbido substituindo “sense” por “cents”). Os momentos mais leves do filme culminam numa projeção de relacionamentos, indicando  um distanciamento da realidade que caracteriza muitos que convivem com a doença. O que Deadpool fez em sua subversão caricata de personagem de HQ, Coringa contribui na direção oposta: trata-se de um filme subitamente sem graça, fúnebre e desesperador.

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Acompanhar o colapso moral de Arthur é uma travessia de emoções que giram em torno da empatia. Temos pena do personagem enquanto espectadores, pois a narrativa é conduzida de modo que o protagonista sempre se vê deslocado do mundo (me lembrando muito as escolhas de enquadramento de Scorsese sobre Travis Bickle em Taxi Driver). Ao mesmo tempo, questionamos suas atitudes seja pela intertextualidade (trata-se do principal vilão dos quadrinhos, ora bolas) quanto pelo significado sintomático (em que Arthur serviria como um avatar de channers socialmente desajustados). Não é uma interpretação acurada, mas o suficiente para estimular valores intolerantes e vingativos – algo que acontece até hoje com o filme estrelado por Robert de Niro, por exemplo. O motivo de preocupação talvez esteja em como Phillips mensura suas manifestações de niilismo, fazendo do Coringa um mártir para a barbárie justificada.

Para além dessa visão, Phillips executa seu filme como um típico estudo de personagem. A figura do palhaço é uma ferramenta peculiar nesse tipo de narrativa, oferecendo contornos psicológicos dignos de discussão. Seja numa música de Charles Mingus ou num desenho de Butch Hartman, a persona circense sempre abre uma grande janela para dissertar questões mentais paradoxais. O brasileiro Daniel Rezende soube aproveitar bem a oportunidade em Bingo – O Rei das Manhãs (e existem até rumores de que serviu como pequena inspiração, como apontado pela semelhança entre os cartazes). Estendendo a discussão, Coringa trabalha também o próprio conceito de comédia numa visão de mundo cínica e imediatista, cuja sensibilidade é constantemente confrontada pela indiferença, pelos julgamentos vazios e pelos sonhos esquecidos.

A fotografia de Lawrence Sher aposta em tons sombrios para estabelecer a tonalidade da narrativa, se revelando bastante conveniente quando vemos Arthur em destaque, fantasiado, ou quando algo berrante (como a cor do sangue de uma vítima  ou as cortinas do programa de Murray) se faz presente. Os pontos de virada do filme são marcados por uma forte iluminação sobre o protagonista, demonstrando sensibilidade (e um certo sadismo) nos momentos de transformação. É uma dissonância visual que encontra ecos na trilha sonora de Hildur Guðnadóttir, cujas melodias pesadas e inacabadas de violoncelos ditam a melancolia e o desamparo onipresentes na película. Se no lado do discurso e da coesão narrativa persiste uma insegurança, podemos dizer que Todd Phillips ao menos concebeu um filme esteticamente bem resolvido. O objetivo maior é manter o fluxo de uma história que depende massivamente de artefatos e simbologias.

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Pois dentre os inúmeros artefatos trabalhados, temos a canção “Smile“, de autoria de Charles Chaplin. A persistência de sua mensagem nos dias de hoje talvez seja um tiro no escuro. É sobre sorrir, mas esbanja ternura, como o vagabundo dando um descompromissado passeio noturno. É sobre um desapego emocional que, acima do ego e das conquistas materiais, se faz necessário, mesmo décadas depois de seu lançamento. A ênfase de “Smile” em Coringa não é das maiores, mas aparece irônica e persistente, como um ar puro querendo entrar no pulmão do fumante crônico. Talvez para nos lembrar de que, mesmo com tanta descrença nesse trem lotado e desgovernado que nos carrega no presente, ainda existe uma possibilidade de alegria que se encontra na parada seguinte. Quem sabe, no amanhã?

giulio bonanno

eterno aprendiz no mundo que o cerca. fã de Cinema, Música e Artes em geral, está sempre à procura de novas apreciações. cruzeirense desde criança, nerd desde berço e mineiro desde sempre.

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