Crítica / “Midsommar: O Mal Não Espera a Noite”

Crítica / “Midsommar: O Mal Não Espera A Noite”
[tempo de leitura: 4 minutos]

Poucas experiências cinematográficas me levaram a tantos sentimentos paradoxais como Midsommar (no Brasil, ganhou o subtítulo “O Mal não Espera a Noite”, rs). Em pouco mais de duas horas de projeção, fui pego por episódios de angústia, repulsa e desespero. No meio disso, senti conforto. Senti resolução. Não sei bem quais são as intenções de Ari Aster, diretor do longa. Há uma confiança depositada na simbologia, um apelo à mitologias pagãs, mas… que discussão de fato ele quer trazer?

Enquanto Dani Ardor (Florence Pugh) digere a notícia de uma perda familiar, descobre que Christian (Jack Reynor), seu namorado, planejava em segredo fazer uma viagem à Suécia com os amigos Mark (Will Poutler) e Josh (William Jackson Harper) a convite de Pelle (Vilhelm Blomgren), que veio de lá. A princípio, uma jornada com o intuito de fomentar teses de antropologia sobre a festa sueca do solstício de verão. Logo percebemos, pelas falas de Mark, que o propósito abrange segundas intenções. Para espantar a desconfiança e, para a decepção dos amigos (com exceção de Pelle), Chris convida sua namorada, que topa instantaneamente.

Chegando lá, o grupo é guiado pelo sueco. A origem do rapaz remonta a uma sociedade alternativa (Hårga) vivendo a quilômetros de distância de Estocolmo, onde não há indícios de urbanização. Os habitantes são fluentes em runas antigas, guiados por uma “bíblia” chamada Rudi Radr, seguem uma profissão de fé marcada nas estações do ano e a celebram no Attestupa, um precipício macabro. O irmão de Pelle, Ingemar (Hampus Hallberg), aparece com um casal de britânicos convidados. Uma atmosfera medonha é gradualmente construída enquanto somos intimados a apreciar os confrontos éticos e morais entre aqueles que vem de fora e aqueles que vivem em Hårga.

Assim como Hereditário, classificar a nova obra de Ari Aster apenas como “terror” soa um pouco leviano. O medo do desconhecido é aparente do ponto de vista dos personagens. As situações são de desamparo, pânico e desespero gradativos, porém as preferências narrativas do diretor culminam muito mais numa trama de investigação amorosa e no drama familiar. Há um tempero especial dado pela psicodelia, como se os filmes de Wes Craven fossem ambientados no mundo de Oz. Toda a roupagem de mistério embala uma infinidade de temas desdobráveis e alegorias que fertilizam a cabeça daqueles que adoram conspirar.

Percebo no perfil de Aster uma quedinha pelas enunciações obscuras e misantrópicas de Lars von Trier. Há cenas aqui que remetem à obras como Anticristo e Melancolia. Em 2019, podemos acolher Midsommar como uma síntese da antítese que fundamenta o movimento Dogma 95 – encabeçado pelos dinamarqueses von Trier e Thomas Vinterberg, buscando conciliar estéticas primitivas às produções cinematográficas da virada do século. Em contrapartida, me arrisco a comparar o estilo de Aster com o de James Wan, outro cineasta contemporâneo, um dos mais bem sucedidos de Hollywood. Há economia no uso dos cenários desenhados por Henrik Svensson e, na fotografia de Pawel Pogorzielski, um apego constante à dessaturação, mesmo quando infinitas cores se mostram presentes. Talvez seja esse combo improvável  que torna seus filmes um pouco mais palatáveis (no sentido comercial mesmo).

Quando avançamos na narrativa, percebemos uma curiosa evolução psicológica na protagonista do filme. Dani está lidando com perdas significativas, daquelas que tornam insustentável um modo de vida vigente. Enquanto o diretor não economiza no gore, há uma alternância para sabermos (ou, pelo menos, questionarmos) o impacto de certas cenas na já traumatizada mente de Dani. Percebe-se uso elegante nos planos fechados e nas elipses – como a da janela no começo do filme ou a do vômito no avião durante o ponto de virada – que contribuem para gerar uma gama de distorções temporais sufocantes (análogas ao de um sentimento de luto). As primeiras impressões de Dani quanto à Hårga são recheadas de contribuições lisérgicas, incluindo a sobreposição da vegetação em sua mão e as criativas misturas de ruídos que, vez ou outra, são incluídas nas composições de Bobby Krlic de forma autodiegética. O objetivo de nos colocar a par das subjetividades da jovem é fundamental para desenvolver uma sensação de acomodação em um cenário de estranheza – que muitos talvez nem encontrem. 

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Já os demais personagens surgem como contribuições burocráticas a esse objetivo principal. Não temos muito espaço para conhecer Mark, que é reduzido a um zé gracinha hormonado e debochado. Quando há algum investimento em Josh, o único impacto sobressalente é uma competitividade vazia (ou mal explorada) com Chris e um jumpscare desnecessário. Christian acaba servindo como uma contraposição ao arco de Dani, num desenvolvimento que começa a ganhar força justamente quando os demais forasteiros já não tem muito o que fazer na história. Curioso que esses sacrifícios são justificados tanto em ponto de roteiro quanto num aspecto mais sintomático da produção: a depreciação da figura masculina/artificial a serviço de um empoderamento feminino/natural.

Como dito anteriormente, Midsommar é um filme recheado de possibilidades interpretativas. Logo no primeiro plano, somos apresentados brevemente a uma pintura repleta de figuras que acabam conversando com um ou outro elemento posterior da narrativa. Mais uma vez, reservo elogios ao designer Henrik Svensson por estabelecer estéticas contrastantes – do apartamento de Dani aos chalés de Hårga, passando pela complexidade dos cultos pagãos – com acertada sintonia. Sempre há um elemento de fundo que brinca com essas amarras requisitadas pelo diretor. Trata-se de uma obra bastante sensível e cuidadosa em sua identidade visual.

Investigar os miolos e contornos de um filme nunca me revelou algo enfadonho. Muitas obras se constroem em cima disso, vide a filmografia de M. Night Shyamalan, David Lynch ou Stanley Kubrick. Fanbases são construídas e é possível aprender e se divertir muito enquanto a sétima arte permanece recebendo o devido valor. Acima de todas as suas pretensões criativas, Midsommar celebra o ímpeto da novidade e da renovação. Um processo que se nutre do trauma e do desapego, exigindo coragem para abrir a cabeça e aceitar a passagem do tempo. Algo que sociedades defasadas, bem como a própria arte e, em extensão, nós mesmos dependemos até a última de nossas estações.

giulio bonanno

eterno aprendiz no mundo que o cerca. fã de Cinema, Música e Artes em geral, está sempre à procura de novas apreciações. cruzeirense desde criança, nerd desde berço e mineiro desde sempre.

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