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“Um Príncipe em Nova York” precisava mesmo de uma sequência?

[tempo de leitura: 4 minutos]

“Um Príncipe em Nova York 2” dá sequência à franquia de Eddie Murphy sem renovar na comédia e usando de um humor sexista ultrapassado.


Nota do Colab: este texto contém spoilers.

 

NNo início de março chegou ao catálogo da Prime Vídeo uma das sequências mais aguardadas do cinema: Um Príncipe em Nova York 2. O seu predecessor foi lançado em 1988, sendo um dos primeiros filmes a atingir escala mundial com um elenco principal composto por atores negros e negras – um marco para a época.

Para quem estava vivendo em um planeta sem Eddie Murphy durante os últimos 33 anos, Um Príncipe em Nova York conta a história de Akeem (Murphy), que ao completar 21 anos começa a questionar sua privilegiada vida sendo o único príncipe herdeiro do trono de Zamunda, um país fictício africano. Esse incômodo faz Akeem e seu fiel escudeiro, Semmi (Arsenio Hall), saírem de seu país rumo aos Estados Unidos, para, assim, o príncipe herdeiro encontrar uma esposa de que goste de verdade e não ser obrigado a passar por um casamento arranjado por seus pais, reis de Zamunda.

Se você for assistir a esse filme em 2021, vai se incomodar com o sexismo que é usado de pano de fundo da história. Primeiro que Akeem foi preparado a vida toda para assumir o trono de Zamunda, já sua futura esposa foi preparada a vida toda para satisfazer Akeem, mostrando inclusive uma cena em que a jovem não possui gostos próprios e obedece cada palavra do personagem de Eddie Murphy. Já Semmi, amigo e servo do protagonista, não tem vergonha em ser machista e objetificar as mulheres em cada palavra e cena que as envolve, tratando a viagem as Américas como uma “despedida de solteiro” – para ele, o jovem príncipe só está em Nova York para usar as mulheres norte-americanas.

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Arsenio Hall e Eddie Murphy, respectivamente

Mas não só Semmi, como todos os personagens e a própria história objetifica as mulheres. Em uma das primeiras cenas de Um Príncipe em Nova York, por exemplo, o longa mostra as servas de Akeem nuas na banheira dando banho nele. O protagonista, por sua vez, se mostra sendo o mais descolado dessa época bem machista, procurando em Nova York uma mulher que tenha opinião própria, que o ame de verdade e que não esteja com ele somente por sua riqueza imensurável.

 

ATUALIZAÇÃO

Na sequência, Um Príncipe em Nova York 2 chega em 2021 adotando um roteiro mais politicamente correto, sem objetificar mulheres na maior parte do filme. Casado com Lisa (Shari Headley) e pai de três filhas, Meeka (Kiki Layne), Omma (Bella Murphy) e Tinashe (Akiley Love), Akeem descobre que tem um filho “perdido” em Nova York e retorna a cidade estadunidense para resgatar o menino e torná-lo seu sucessor ao trono de Zamunda.

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As atrizes KiKi Layne, Bella Murphy e Akiley Lovek, respectivamente

No desenrolar, observamos uma tentativa – assertiva em algumas cenas – de consertar alguns erros misóginos do longa anterior. São exemplos como o fato de a vontade de Meeka, filha mais velha do protagonista, de assumir o trono ser ignorada o filme inteiro para, no final, ser coroada a  sucessora legítima de Akeem.

Eddie Murphy e Arsenio Hall voltam a interpretar diversos personagens no filme, pratica comum dos atores ao longo de suas carreiras, ao darem vida aos barbeiros de Nova York e o padre/pastor que quase casa o filho de Akeem.

Um Príncipe em Nova York 2 deixa a desejar em alguns pontos, com muitas cenas parecidas com passagens do primeiro filme, deixando a impressão de que o roteiro foi escrito de maneira preguiçosa com base de que, por ser muito aguardado, o longa faria sucesso de qualquer jeito. Se era pra dar um tom saudosista, erraram na quantidade.

Uma das cenas que mais me chamou a atenção é quando Semmi explica para Akeem como seu filho “perdido”, Lavelle (Jermaine Fowler) foi concebido, fazendo alusão a um sexo sem consentimento, já que Akeem, aparentemente, estava sob efeito de entorpecentes e, em sua memória, ele teria sido atacado por um javali. Esse sexo sem concentimento é completamente esquecido e o filme se passa sem que aconteça uma conversa entre Akeem e a mãe de Lavelle, intrepretada por Leslie Jones. Tenso.

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Leslie Jones (dir.) e Jermaine Fowler (centro)

Mas não só de erros vive uma comédia de Eddie Murphy e Um Príncipe em Nova York 2 tem vários acertos, como a escolha dos atores novatos. As cenas de flashback da dupla protagonista parece que estavam gravadas a 33 anos só esperando uma sequência, e as falas e referências a Pantera Negra, outro filme que mostra a África fora dos estereótipos que os norte-americanos estão acostumados a retratá-la, são geniais.

Apesar das várias falhas, o longa é de ser comemorado por conta do peso histórico que carrega. Eddie Murphy colocou sua carreira em risco ao colocar nos cinemas da época um filme composto com um elenco majoritariamente negro e sucesso na empreitada com uma história que cativou e emocionou o público, fazendo sair do papel uma sequência mais de 30 anos depois. Mas, eu espero que Um Príncipe em Nova York 2 seja a única.


ASSISTA
Um Príncipe em Nova York e Um Príncipe em Nova York 2 estão disponíveis no catálogo da Amazon Prime Video. Aproveite!

Douglas Pereira

23 anos, Jornalista e estagiário do Jornal O Dia. Escorpiano, carioca e flamenguista, não necessariamente nessa ordem. Adora ir ao Cinema sozinho, mas odeia ir ao Cinema sozinho. Escreve, assiste, lê, pesquisa e fala muito.

That’s all, folks!

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