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Em "Não! Não Olhe", maior filme da carreira, Jordan Peele assegura sua posição como um dos grandes nomes da Hollywood contemporânea.

Em “Não! Não Olhe!”, maior filme da carreira, Jordan Peele assegura sua posição como um dos grandes nomes da Hollywood contemporânea.


AApelar para máximas em qualquer tipo de análise é um risco a se correr, mas dado à carreira que Jordan Peele vai construindo até então, vale a aposta ao dizer que ele é um dos mais interessantes (e porque não melhores) diretores dos EUA da década. Nope (Não! Não Olhe!, no péssimo título em português), dá as caras ao mundo para sedimentar o nome de Peele não só como um realizador magistral do cinema de horror, mas como um verdadeiro historiador da sociedade americana e do cinema.

No que tange a trajetória de Peele em seus três primeiros filmes, cabe aproximações e comparações a nomes como M. Night Shyamalan e Steven Spielberg, tanto pelo estilo da encenação quanto pelas temáticas. Este Não! Não Olhe, por exemplo, remete imediatamente ao Sinais (2002) de Shyamalan ou ao Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977) de Spielberg – e neste caso, até outros filmes com temáticas do desconhecido dirigidos por ele. Contudo, enquanto os filmes de Shyamalan e Spielberg lidavam com o desconhecido pelas vias da fé e da família respectivamente, o novo longa de Peele o faz pela correção histórica com o povo negro, tendo o registro como meio e fim.

Assim, acompanhamos a história dos irmãos OJ (Daniel Kaluuya) e Emerald (Keke Palmer) ganhando contornos extra-humanos quando o rancho herdado após a misteriosa morte do pai se torna palco de eventos ainda mais inexplicáveis. Em meio a todo este mistério e ao risco iminente de perder o valor que o rancho tem com as seguidas vendas dos cavalos treinados para cenas nos filmes Hollywoodianos, os irmãos se vêem frente a uma única solução: conseguir um registro daquilo que acreditam estar acontecendo no vale onde vivem.

O registro enquanto exercício tem parte importante em Não! Não Olhe!. Já na primeira cena dos irmãos juntos, vemos Emerald discursar para um set de filmagem típico de hollywood a respeitado do apagamento do jóquei negro que guiava o cavalo capturado em uma das primeiras imagens em movimento captadas. Daí em diante fica claro que a jornada dos protagonistas de Nope é, justamente, sobre a posição de protagonismo como um real posicionamento social e cultural na História (com H maiúsculo) do país.

O próprio nome do filme brinca com essa noção de que o personagem de Kaluuya recusa o seu envolvimento com os acontecimentos que se apresentam, mas tanto ele quanto a personagem de Palmer assumem sua posição de protagonistas da própria jornada porque é a opção que lhes resta em um mundo que não lhes dá nada e os apaga da história. Por isso o grande clímax depende tanto do registro como correção histórica, retomando o homem negro sob o cavalo a posição central que lhe foi roubada.

Em meio a tanta metalinguagem temática envelopada como discurso social e crítico a máquina hollywoodiana e a indústria de espetacularização que a mídia se tornou, Peele encontra tempo e espaço para se divertir como nunca por trás das câmeras. Gozando do prestígio que alavancou com Corra! e Nós, o diretor abraça a oportunidade de trabalhar em seu filme de maior orçamento para encher a tela de cinema com sequências e planos brilhantes de gêneros diversos (do western ao horror, passando por relances até do giallo e da comédia).

O trabalho de câmera e luz de Hoyte van Hoytema cria sequências belíssimas das paisagens áridas dignas dos melhores westerns clássicos, ao mesmo tempo que monta um jogo de gato-e-rato enervante, brincando com o movimento de TILT para emular o olhar para os céus – tão caro e perigoso para os personagens de Não! Não Olhe!.

Fazendo o orçamento valer muito no clímax, tanto no escopo da ação, quanto no CGI, o filme “metamorfa” tudo aquilo que vem construindo como discurso, problemática e mistério na revelação do que se esconde sob o céu azul do rancho californiano. E a revelação do grande monstro devorador termina por equacionar toda conta que o diretor vem construindo, com novos fatores a cada movimento da narrativa.

É curioso que a simbologia de Peele opte por um encerramento que arremate todas as temáticas de uma única vez. Ao solucionar a questão do registro, ele opta por uma resolução que dê conta do que narrativa e temática pedem: na falta da tecnologia mais avançada e da câmera analógica aos personagens, resta recorrer a uma câmera de manivela para combater o monstro de computação gráfica criado pelo filme de maior orçamento do diretor.

Difícil perceber um statement mais claro dentro de toda a metalinguagem em Não! Não Olhe! do que esse movimento de reconhecer um certo resgate do “old ways” da sétima arte como resposta ao inflame do cinema de espetáculo vazio que assola Hollywood. Que o espetáculo seja feito, com muito sentido e potência em sua realização. Nada mais justo que Jordan Peele faça parte deste movimento, nos guiando também para uma correção histórica com o povo negro.

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