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Enigmas pouco ocultos

[tempo de leitura: 4 minutos]

Em série de suspense, “The Undoing” faz um jogo de aparências tanto na narrativa quanto na representação dos núcleos familiares elitistas.


DDepois de ter o lançamento adiado algumas vezes, a produção The Undoing finalmente chegou ao catálogo da HBO no final do mês de outubro. Idealizada e escrita por David E. Kelley, a série é centrada no casal Grace Fraser e Jonathan Sachs (Nicole Kidman e Hugh Grant,respectivamente), membros da elite nova-iorquina. Ambos têm a vida significativamente afetada quando uma mãe da escola do filho, Henry, é brutalmente assassinada. Logo no primeiro episódio, percebemos que os dois tinham, cada qual a sua maneira, algum tipo de relação com a vítima, Elena Alves (Matilda de Angelis).

Muito mais do que uma trama de “quem matou”, The Undoing é um mergulho nas falhas e nos dramas psíquicos de uma típica família de elite, aparentemente perfeita, bem no estilo comercial de Margarina (ou no estilo Big Little Lies, para utilizar como referência outra obra que gira em torno de uma assassinato, é do catálogo da HBO e também produzida por Nicole Kidman).

É um inegável mérito da produção proporcionar que o espectador crie vínculos com a história desde o primeiro episódio. A ambientação criada é excelente e, em pouco tempo, já entendemos aquele universo e nossa atenção está capturada. Os movimentos de câmera dialogam constantemente com o sentimento dos personagens (como na cena em que Grace recebe a notícia da morte de Elena), e de fato é possível se sentir como eles: sufocados, ávidos por respostas, em choque.

Há uma ressalva importante a ser feita: a representação dos latinos em The Undoing não deixa de ser estereotipada e, consequentemente, problemática em algum nível. Afinal de contas, Elena Alves corresponde ao estereótipo da mulher latina sedutora, sem controle das emoções, que perde a cabeça facilmente por um homem. Seu marido, Fernando (Ismael Cruz Cordoba), também é mostrado algumas vezes como um homem agressivo, que poderia perder a cabeça a qualquer momento. Não é sobre eles serem do “bem” ou do “mal”, mas principalmente como são apresentados e descritos de forma geral.

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Hugh Grant e Nicole Kidman como os protagonistas da série da HBO

Para o problema (que definitivamente não se aplica apenas a The Undoing, mas em quase todas da indústria) ficar mais evidente, basta realizar uma inversão: é comum ver, numa série tradicional, personagens latinos com o temperamento similar aos de estadunidenses, geralmente protagonistas? Ou seja: polidos, centrados, com fala calma e contida? Ou, quem sabe, uma mulher latina que não seja, de alguma maneira, objetificada ou representada como impulsiva, “sangue quente”? Se a resposta for “não, não estamos muito habituados a ver isso”, talvez já tenha passado da hora de pensarmos em melhores representações para nós – sim, nós, já que, apesar de muitos se esquecerem disso, brasileiros também são latinos.

É claro que diferenças culturais existem e devem ser retratadas, mas, como diz a escritora Chimamanda Adichie, estereótipos não são necessariamente errados, mas incompletos. “Mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão”, afirma a nigeriana.

Parêntese fechado, é importante dizer que a maior parte dos personagens da minissérie é construída com complexidade. Ao longo de todos os episódios de The Undoing, não sabemos se deveríamos ou não confiar em Grace, a protagonista, pois ela é repleta de contradições: às vezes frágil, às vezes muito forte, em alguns momentos confiável, em outros nem tanto. Ou seja, humana. O mesmo acontece com o pai da personagem principal, Franklin Renner, que parece sempre querer o melhor para sua família, mas passa a impressão de guardar muitos mistérios. A atuação de Donald Sutherland, vale pontuar, é mais do que impressionante e rouba a cena em diversos momentos.

Ainda em relação aos suspeitos, da maneira enigmática que a narrativa é (bem) conduzida, não colocamos a mão no fogo nem pelas crianças (também interpretadas por excelentes atores). A série utiliza muitas técnicas de misleading, ou seja, de enganar, despistar propositadamente o espectador para que ele pense em inúmeros suspeitos que poderiam, de fato, ter cometido o crime.

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O ritmo do seriado da HBO também é digno de nota. Não há a sensação de perda de tempo e tampouco de que a história está indo rápido demais. Estão espalhadas, inegavelmente, boas pistas para a resolução do mistério ao longo de todos os capítulos. Provavelmente, a resposta do porquê a conclusão não foi facilmente aceita por uma parcela da audiência deve estar justamente numa reflexão presente no último capítulo, na fala da promotora Catherine Stamper: “Será que a verdade sobre aqueles com quem nos casamos não é distorcida pelo desespero do ideal que gostaríamos de ter no cônjuge?”. Muitas vezes relutamos em aceitar o que está na nossa cara, justamente porque estamos fortemente agarrados a determinadas ideias e expectativas.

O final de The Undoing consegue, então, ser paradoxalmente óbvio e surpreendente (talvez surpreendente por ser tão óbvio), no estilo de Doze Jurados, outra excelente série de 2020. Os elementos para a conclusão podem ser identificados em vários episódios – mas nem sempre os enxergamos, seja por paixões, ideais, vícios em determinados formatos narrativos ou até mesmo por escolhas elementares, mas nem sempre conscientes.

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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