Quem vigia os vigilantes?

Quem Vigia Os Vigilantes?
[tempo de leitura: 5 minutos]

“The Boys” traz um frescor para o gênero de super-heróis e dá mais fôlego para a Amazon Prime Video na luta por espaço na era de streaming.


A estreia de The Boys, série do Amazon Prime Video que adapta o quadrinho homônimo criado por Garth Ennis e Darick Robertson no início dos anos 2000, carrega uma proposta temática interessante para o mercado da cultura pop atual. Publicada entre 2006 e 2008, Ennis trouxe uma tardia resposta depravada, violenta e ácida à pergunta “quem vigia os vigilantes?”, levantada por Alan Moore em Watchmen.

Agora, com a estreia da primeira temporada de oito episódios, o excelente material de Ennis ganha uma nova roupagem e uma nova vida no mercado, trazendo um frescor para o gênero de super-heróis e contrapondo todas as formas de representação destes – até mesmo de filmes como Deadpool. A estreia é, também, mais um sinal de como a produção televisiva tem confrontado o cinema cada vez mais, permitindo a adaptação de obras de outras mídias que foram consideradas “inadaptáveis” para as telas, como é o caso de The Boys.

Para além de comparações entre a coletânea dos quadrinhos e a nova empreitada televisiva no streaming, a série adapta o material original com esmero, principalmente graças a inteligente escolha do showrunner Eric Kripke de se basear em apenas uma parte da história das HQs. Assim, temos uma temporada de estreia focada no desenvolvimento de personagens e na construção e expansão do universo apresentado.

 

15 Minutos de Heroismo

Para quem não conhece, The Boys traz em sua trama uma representação de um mundo repleto de super-heróis cultuados para além de símbolos e ícones culturais, mas como verdadeiras celebridades que atendem à fãs com pedidos de selfies e autógrafos. Junto de todo esse glamour, claro, existe uma indústria bilionária por trás da construção dessas figuras, simbolizadas pelos Os Sete, um grupo de poderosos elevados ao pedestal de deuses graças ao marketing, ações comerciais, divulgação e exploração da imagem por parte da empresa Vought.

Desta forma, a série encontra uma forma ideal para tratar os heróis com desprezo, construindo-os como seres falhos, repugnantes e eticamente deploráveis, o extremo contrário de tudo aquilo que os milhões de fãs enxergam e consomem através de bonecos, filmes, quadrinhos e videogames. A sacada da produção é atualizar a premissa que Ennis utilizou para os quadrinhos, se inspirando na vida dos holofotes vivida por celebridades, para o mercado dos filmes de herói atual, dominado pela Marvel Studios e seu universo compartilhado no cinema.

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Para acompanharmos a riqueza deste universo e mergulharmos na acidez com que o texto da série trata todas as temáticas, seguimos a perspectiva de Hughie (Jack Quaid), um técnico em eletrônica e vendedor de aparelhos de uma pequena loja. Com uma vida ordinária, ele perde o que tinha de maior valor quando sua namorada, Robin (Jess Salgueiro), é atropelada de forma abrupta e violenta pelo super-herói velocista A-Train (Jessie T. Usher), ainda em seus braços. Sofrendo com a perda, uma crise profunda de stress pós-traumático e incitado pelo ódio de a empresa responsável pelos heróis tentarem esconder o caso com um mísero pagamento de danos, o protagonista acaba se juntando ao misterioso e violento Billy Butcher (Karl Urban), em uma jornada de vingança e de destronar Os Sete de toda sua virtuosa e glamorosa posição.

 

Desconstruindo os Super

Pautando todo a construção de mundo e personagens na subversão e depravação dos valores com que Gareth Ennis fez nos quadrinhos, o roteiro da série acerta ao desenvolver a trama que envolve os heróis por meio da introdução de Starlight/Annie January (Erin Moriarty), uma jovem e inocente garota com poderes à base de luz que consegue entrar para o grupo de poderosos depois de ser aprovada em exames e testes ridículos – tais quais uma competição de beleza como a Miss Universo. A partir da relação da personagem com os outros superpoderosos, passamos a acompanhar a desconstrução do sonho da garota e, consequentemente, dá imagem construída que o mundo e o espectador têm inicialmente dos heróis e da corporação Vought.

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Todo o desenvolvimento dos arcos dramáticos é muito bem construído, pautados na relação entre os personagens e como os acontecimentos escatológicos, violentos e marcantes da narrativa agregam peso aos efeitos que cada um deles sentirá – e consequentemente, que o espectador se identifica. Ainda, o roteiro acerta ao conseguir tornar relevantes todos os personagens que trafegam a trama, seja no “núcleo The Boys”, com a excelente dinâmica de grupo, ou no “núcleo d’Os Sete”, com a interessante desconstrução e problematização de tudo o que acontece ali.

Acompanhando os personagens bem escritos e o texto afiado, todo o elenco agrega com suas interpretações, trazendo suas próprias particularidades para as nuances de cada um. Os maiores destaques vão para Jack Quaid, Erin Moriarty, Antony Starr e Karl Urban, que elevam seus personagens a outro patamar. Urban e Starr abraçam a caricatura dos personagens de quadrinhos, junto do cinismo e da deturpação da escrita de Ennis, em suas interpretações. O primeiro faz jus a todo comportamento desbocado, raivoso e tóxico de Billy Butcher, demonstrando ainda vislumbres de cicatrizes emocionais por debaixo daquela casca grossa. Já o segundo dá vida a versão mais deturpada do Super-Homem já vista, com mudanças de humor e feições instantâneas, além de assumir toda a pompa do personagem enquanto símbolo de uma representação de mito, dosando a forma como escancara o nojo e o desprezo que Homelander sente pelos não-poderosos.

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Por outro lado, Jack Quaid traz muita personalidade e carisma para Hughie, externalizando toda a angustia, dor e sofrimento internos que o personagem sofre ao passar por uma completa transformação em sua vida e em seu jeito de lidar com o mundo que o cerca. Já Erin Moriarty vai da inocência e pureza no olhar de Annie para a cascuda, sofrida e amargurada Starlight, em uma interpretação que evidencia no olhar da personagem o sentimento de descrença e de perda da pureza.

Além de tantos elogios, a série ainda se sai muito bem em todos os aspectos técnicos, principalmente no design de produção e nos figurinos, que ajudam a transformar todo o universo ali real, ao passo que ainda potencializam a mitificação dos superpoderosos.

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Trazendo um frescor para o gênero de super-heróis, seja na televisão ou no cinema, The Boys é um grande acerto da Amazon Prime Video na luta para conquistar mais espaço no mercado de streaming. Com um final em aberto, uma segunda temporada já encomendada e muito do material base das HQs para ser adaptado, fica a certeza de que não vai demorar para vermos novamente a divertida, violenta, ácida e interessante jornada de Hughie, Butcher, Starlight e companhia.

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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