E Pluribus Unum

E Pluribus Unum
[tempo de leitura: 7 minutos]

Terceira temporada de “Stranger Things” aposta em narrativa leve e produção marcante, e prova porque a série é a mais popular dentre tantas outras no catálogo da Netflix.


Nota da Colab: este texto contém spoilers.

 

AApós quase dois anos de espera, a terceira temporada de Stranger Things teve sua estreia mundial no dia 4 de julho e já está batendo recordes de audiência. A primeira temporada foi um sucesso disparado na Netflix, mas a segunda não agradou tanto assim o público e deixou alguns fãs receosos com o que poderia vir a seguir. A notícia, porém, é boa: a nova temporada é potencialmente a melhor até agora.

 

Stranger Things

  • Save

Poster da terceira temporada

A série se passa na pequena cidade de Hawkins, Indiana, nos anos 1980 e ficou famosa por sua estratégia de estruturar a narrativa em diversas referências da década, criando um sentimento de nostalgia ao longo de sua trama. A receita deu certo até o momento, mas foi perdendo seu encanto ao longo da segunda temporada, que pareceu quase comercial demais. Sair deste beco criado para si mesmos foi um desafio para os gêmeos Matt e Ross Duffer, criadores de Stranger Things.

As crianças (já nem tão crianças assim) Mike, Eleven, Dustin, Lucas, Will e Max iniciam sua nova jornada na inocência das férias de verão. E é sob o calor do verão de 1985 que a história se desenvolve. A atmosfera criada, com pitadas fortes de referências aos filmes de John Hughes, transporta até mesmo quem não cresceu na década de 1980 para esse cenário, fazendo o que a série faz de melhor: usar e abusar da nostalgia, seja de uma era ou apenas de fases da vida.

Com uma curta sequência de oito episódios, a narrativa de Stranger Things consegue tocar todas as veias emocionais da infância e da adolescência, ao mesmo tempo em que apresenta mais monstruosidades do Upside Down, mesclando humor e leveza com um terror cada vez mais gráfico. Essa temporada é uma montanha-russa, que alterna seus altos e baixos entre cada núcleo de personagens, nunca deixando o telespectador entediado.

 

Coisas Estranhas da Adolescência

Mike (Finn Wolfhard) e Eleven (Millie Bobby Brown) são oficialmente um casal e, como qualquer outro casal adolescente, passam muito tempo se beijando, um fato que o delegado Jim Hopper (David Harbour) se esforça para aceitar. Essa dificuldade de Hop em lidar com os hormônios de sua filha adotiva o levam até Joyce (Winona Ryder), em busca de conselhos – o que leva o relacionamento de amizade dos dois começar a engatinhar para algo a mais. Lucas (Caleb McLaughlin) e Max (Sadie Sink) formam o segundo casal no grupo.

  • Save

As crianças, agora no início da adolescência, de “Stranger Things”: Max, Mike, Eleven, Will, Lucas

Dustin (Gaten Mazzerato) volta do acampamento de ciências com uma uma namorada de longa distância, chamada Suzie, que parece boa demais para ser real. Agora, jogado para escanteio no clube dos solteiros, ficou Will (Noah Schnapp), cujo sofrimento parece ser interminável. Tudo que ele quer é jogar Dungeons & Dragons, mas seus amigos estão mudando muito rápido e parecem ter deixado aqueles dias de longas campanhas no porão do Mike para trás.

O mix termina com o casal Jonathan (Charlie Heaton) e Nancy (Natalia Dyer), que parecem ter deixado a química só para a fora das telas. A presença deles, mesmo com a atuação brilhante de Natalia, quase passa despercebida, mas acaba sendo de grande valia quando todos os núcleos se unem.

 

Ameaça Comunista

Uma das melhores decisões dos Duffer nessa temporada foi ter mantido a dupla improvável que Dustin e Steve (Joe Keery) formam, que agora se unem à Robin (Maya Hawke), uma nova adição ao elenco, e a pequena irmã de Lucas, Erica (Priah Ferguson). Juntos, eles preenchem a parte cômica que a série precisava para não saturar as cenas de suspense e terror. Com eles acompanhamos toda a conspiração anti-comunista que cerca Stranger Things desde a temporada um.

  • Save

Em outro arco da série, Dustin se une a Steve e Robin

Vale lembrar aqui que, além de ser feita com referências aos anos 1980, a série foi criada para dar a impressão de ter sido feita naquela década, quando os Estados Unidos viviam uma Guerra Fria com a Rússia. O fantasma do comunismo assombrava àqueles que defendiam com unhas e dentes o capitalismo nos EUA, e eu achei uma sacada genial colocarem a base dos agentes comunistas dentro de um shopping.

 

Girl Power

Um destaque que precisamos dar é o relacionamento de El com Max. Desde o momento em que as meninas compreenderam que não estavam em uma competição e o clima de ciúmes da segunda temporada se esvaiu, as duas se tornam amigas e a série se esforça para mostrar a força de uma amizade entre mulheres, até mesmo para uma compreensão mais feminista da vida.

  • Save

Eleven, que passou a maior parte de sua vida em um laboratório, começa aprender sobre si mesmo e sobre ser uma mulher independente, graças a Max

Max a todo momento explica para Mike que Eleven é uma pessoa independente e que não precisa obedecê-lo. O pensamento vem muito das mudanças sociais da década nos Estados Unidos, quando mulheres jovens, conhecidas como Yuppies, começavam a buscar posições válidas no mercado de trabalho. El fica cada vez mais confiante em si mesma e nos seus poderes ao longo do terceiro ano, o que a torna uma personagem mais forte e embasa seu amadurecimento – tão lindo de se ver na cena final.

 

Terror Fora do Upside Down

O foco nas relações interpessoais, apesar de gostoso de se assistir, não dura muito, pois em outro núcleo de personagens o mau já começa a fazer seu caminho. Tanto a narrativa quanto o resultado final da produção continuam tendo como base referências fortes de Stephen King (que é um grande fã da série) e Steven Spielberg, o que traz para essa nova temporada ainda mais terror, só que dessa vez fora do Mundo Invertido.

ENTRE AS DIVERSAS REFERÊNCIAS DA TEMPORADA, ESTÁ A MÚSICA TEMA DA TRILOGIA “A HISTÓRIA SEM FIM”

Assim como vimos a personagem de Max crescer na série, o mesmo acontece com seu irmão, Billy (Dacre Montgomery), que carrega o arco do terror desta terceira parte nas costas. Ou melhor, no corpo todo, ao virar um instrumento de guerra do Devorador de Mentes. Nos momentos em que o horror se faz à luz do dia, com Billy cooptando cada vez mais vítimas para o monstro, sentimos o mesmo arrepio na nuca que Will sente quando o pior está por vir. Os irmãos Duffer não pouparam nenhuma gota de sangue falso na produção e algumas cenas são de revirar o estômago.

  • Save

A bela face do perigo

Em todos os sentidos, o avanço é visível: os efeitos especiais estão absurdamente melhores, os diálogos são mais divertidos, as transições de cena são um show, e a narrativa é muito mais rápida e contida. Para mim, a parte mais legal continua sendo o uso de referências, como a criatura que, quando alcança sua forma final, se transforma em uma aranha enorme, como A Coisa, de Stephen King. Outra referência, um pouco mais óbvia, foi ao Exterminador do Futuro (1984), com o agente russo que parece ser implacável na sua missão de defender os interesses do laboratório.

 

Jornadas do Herói & Vida de Pai

Nem o Mundo Invertido, nem os poderes de Eleven ou sua irmã apresentada na segunda temporada, voltam a ser remexidos. Ao invés disso, a trama foca em um único problema a ser resolvido e na jornada do herói que cada grupo de personagens precisa passar, assim como foi na primeira temporada. Os arcos de cada personagem dessa temporada vieram tão bem amarrados que, para quem maratonou, a sensação pode ter sido a de assistir à um longo filme de oito horas. O problema é, claro, que o mesmo não ocorre quando se assiste ao episódios separadamente.

  • Save

A linha do tempo que se desenvolve entre os episódios fica confusa: enquanto Billy passa dias encontrando novas vítimas para o Devorador de Mentes, Hopper parece estar apenas à poucas horas sem ver a Eleven e não se preocupa com seu paradeiro enquanto embarca em uma aventura em parceria com Joyce. Esse ponto é um dos mais incômodos, pois logo no começo vemos o Xerife como um pai preocupadíssimo: na medida em que a trama se desenvolve e foca em seu relacionamento com Joyce e no alívio cômico do russo carinhosamente apelidado de Smirnoff (Alec Utgoff), o lado paterno desaparece e retorna apenas no penúltimo episódio.

  • Save

Fora da cidade, Hopper e Joyce capturam um “perigoso russo matador de crianças” e tentam desvendar sua relação com o Mundo Invertido

E se você não chorou com a cena final, da carta, das duas uma: ou você não tem coração, ou, assim como eu, não conseguiu visualizar Jim em todo seu jeito rústico, digamos assim, escrever algo tão sensível. Mas tudo bem. Essa a gente deixa passar, porque foi bonitinho e aqueceu nossos corações partidos com o luto de Eleven e Max.

Por fim, a cena pós crédito é como a pequena abertura, de 3 centímetros, que Jim tanto implora para El e Mike manterem na porta do quarto, e deixa uma pequena fresta aberta para uma possível continuação. Sequência essa que eu espero que venha – mas se não vier, tudo bem.

  • Save

“Deixe a porta aberta sete centímetros”

A temporada é finalizada em um tom de despedida tão triste, e ao mesmo tempo tão delimitado, que Stranger Things dificilmente seria lembrada como uma série sem conclusão, caso acabasse hoje e nunca a continuassem. Agora resta maratonar tudo de novo, contar as referências que não pegamos de primeira e curtir a nostalgia de períodos passados.

bruna nogueira

tem 22 anos, é jornalista, feminista, e viver para ler e contar histórias. com um senso de humor negro, faz piada de tudo e não passa um dia sem escrever.

Back To Top
Share via
Copy link
Powered by Social Snap