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Recomeços intergalácticos

[tempo de leitura: 5 minutos]

Com terceira temporada, “Star Trek: Discovery” derrapa e entrega abaixo do esperado, mesmo com uma interessante adição de enredos e personagens.


Nota do Colab: o texto contem levíssimos spoilers.

 

MMuito se fala sobre Star Trek: Discovery. Para os Trekkers (nome dado aos fãs da franquia) mais embriagados pelo saudosismo, esta é uma das piores – se não, a pior – adaptações spin-off da série original. Para os menos “fanboys” (delegação de fãs mais “fervorosamente apaixonados”), como eu, esta é uma das melhores e mais belas séries de ficção-científica atualmente em exibição.

 — Nossa análise sobre as duas primeiras temporadas de “Star Trek: Discovery” 

 

novas DESCOBERTAS

Quando o spin-off da CBS All Access iniciou sua jornada, revelando o novo galho na árvore genealógica da família de Spock, os fóruns digitais foram rapidamente inundados pela dúvida. Em mais de 50 anos de expansão transmídia, Spock nunca sequer citou a existência de uma meia-irmã, então como uma poderia existir?

O “furo” foi carregado por duas temporadas, o que proporcionou ao time de roteiristas em brincar um pouco com a mitologia ao qual eles se inseriram. Assim, ao lado da tripulação da USS Discovery, o telespectador foi capaz de fazer uma longa viagem ao Universo Espelho e até mesmo de ver Capitão Pike (Anson Mount) assumindo o comando temporária da nave científica.

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É apenas ao final do último episódio do segundo ano em que o público finalmente tem sua pergunta respondida, fechando o ciclo narrativo que bebia diretamente da fonte da série original e dando o pontapé em uma nova jornada.

DIto isso, abrem-se as aspas.

 

Outro Mundo

Com a necessidade de salvar a Federação de ser destruída, a tripulação da USS Discovery toma difíceis decisões que os levam a entrarem em um buraco de minhoca. Jogados mais de 900 anos no futuro, Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) e seus colegas de trabalho se vêem diante um mundo completamente diferente do deixado para trás.

Já não fosse difícil ter que lidar com o peso de estar 900 anos à frente do então “presente”, a nave científica logo descobre que, apesar do esforço, a Federação não existe mais, desmembrada após um capítulo apocalíptico expontâneo conhecido como A Combustão. Assim, tentando reconstruir um pedaço importante de seus recentes passados, Burnham e a Discovery partem em uma jornada para tentar reconstruir a delegação dos planetas e entender o que ninguém consegue explicar: o que foi o tal evento de fim-de-mundo e o que causou ele?

 

TRANSIÇÕES

O maior problema com a terceira temporada de Star Trek: Discovery parte, exatamente, de sua premissa. O novo mundo da série, embora mostre-se promissor por representar um quadro branco narrativo, solto das amarras que as duas primeiras temporadas trouxeram, acaba trazendo muitas lombadas para o desenrolar da história.

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Booker, um dos novos personagens, ao lado de Burnham

Eventualmente, o mistério central da trama se desenrola em um arco que parece forçado, mesmo sendo explicado de forma crível e confiante. Por outro lado, dramas que trazem um interessante potencial narrativo são deixados de lado ou rapidamente pincelados (como o estresse pós-traumático da tripulação, a Esfera ganhando vida, ou até mesmo Osyraa), sendo apresentados como uma espécie de “um meio para o fim”.

Fica logo claro que o terceiro ano da produção é uma “temporada de transição”. E tal qual centenas de outras produções seriadas, Star Trek: Discovery não consegue escapar da maldição. Temporadas de transição são conhecidas por apresentarem grande potencial, mas fazerem entregas fracas e abaixo do esperado – vide a terceira temporada de Westworld.

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Mesmo com um elenco talentoso e visuais de dar inveja a muitos filmes, é evidente o trabalho pesado que a produção faz ao tentar simular o nível entregue até o momento. Há muitos momentos de tensão, além de dezenas de situação de vida-ou-morte e a constante necessidade do heroísmo de Burnham. Para pior, o público ainda perde um de seus mais queridos e interessantes personagens – embora esse tenha sido motivado mais por um lado pessoal/artístico do que narrativo de fato.

 

UNIVERSO INCLUSO

Star Trek, a franquia, é conhecida por dois pontos importantes. O primeiro deles á o teor político por trás de suas histórias, enquanto o segundo é a sua constante busca por representatividade e inclusão. Se na série original víamos personagens asiáticos e pretos assumindo relevância narrativa (e o primeiro beijo interracial da TV estadunidense), em Star Trek: Discovery essa fibra é potencializada, com personagens orientais, afro-descendentes e/ou gays assumindo o protagonismo – dentro e fora das telas.

E apesar das falhas, a terceira temporada de Discovery acerta cheio ao se tornar ainda mais atual. Pela primeira vez, Star Trek insere um ator transmasculino (Gray Tal, interpretado por Ian Alexander) e uma atriz não-binário (Adira, a cargo de Blu del Barrio) ao seu elenco, com del Barrio interpretando um personagem que corresponde à sua identidade – responsáveis pelo belíssimo episódio Não Me Esqueçam (S03E04).

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Adira e Gray Tal, respectivamente

Para facilitar ainda mais a explicação da não-binaridade, Adira revela-se como uma hospedeira para a raça Thrill, uma raça simbionte que carrega consigo as almas e memórias de seus hospedeiros anteriores, passando adiante todo o conhecimento carregado ao longo de sua vida.

Então, já que Adira carrega consigo várias pessoas, é natural que sua existência sob o plano singular do “She” (Ela) não faça sentido, trazendo à superfície a adoção do pronome “They/Them” (Eles/Deles, ou “Elus/Delus” na linguagem neutra não-binária).

Gray Tal, por outro lado, não tem sua sexualidade/identidade discutida na série, mas sua presença segue histórica e importante. Se ele está ali fazendo um papel de trans, é o primeiro personagem trans da série. Se ele está ali como cisgênero, então é igualmente importante a relevância de um ator trans fazendo um papel cis – tal qual Dominique Jackson na terceira temporada de American Gods (2017–).

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Por fim, mesmo com adições interessantes e alguns acertos pontuais, Star Trek: Discovery não se mantém constante e entrega uma temporada mediana e pouco inspirada. Mas sabendo de seu histórico, e tendo em mente que temporadas de transições costumam ser apenas uma, há muito para ser desvendado na quarta temporada. Afinal, é um novo mundo, uma nova Federação e um novo potencial de aventuras e descobertas.

vics

Tem 25 anos, é formado em Jornalismo e tem uma pós em Comunicação e Marketing. É um dos criadores do projeto, colaborando com matérias sempre que tem uma boa pauta em mãos.

Em 2020, passou 48 dias assistindo Séries usando a desculpa de escrever pra revista e outros 11 dias assistindo Filmes, deitando pra indústria dos blockbusters. Não leu nenhum Livro, mas foram 48 dias reproduzindo Música e fingindo estar dublando pelo próprio legado. ✨

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