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"Making the Cut" tenta inovar no formato estabelecido pelo trabalho de seus próprios criadores, mas parece nem mesmo entender a sua proposta.

“Making the Cut” tenta inovar no formato estabelecido pelo trabalho de seus próprios criadores, mas parece nem mesmo entender a sua proposta.


DA corrida para inovação nem sempre é uma situação de vitória. As vezes, você pode se deparar com algo como Making the Cut, reality de competição de moda criado para o Prime Video, serviço de streaming da gigante Amazon.

É engraçado pensar que este é o programa desenvolvido por Heidi Klum e Tim Gunn, que saíram do bem estabelecido Project Runway, reality criado por eles, para poderem entregar esta peculiaridade. E graças à parceria com a Amazon, eles tem a oportunidade de contar com nomes de peso para juntar-se à Heidi no banco de jurados. Assim, temos a titã das passarelas Naomi Campbell, a socialite, atriz e empresária Nicole Richie, a supermodelo e influencer Chiara Ferragni, o estilista Joseph Altuzarra e a editora-chefe da Vogue França, Carine Roitfeld.

Making the Cut, que viaja por três capitais da moda (Paris, Tóquio e Nova Iorque), se constrói a partir da ideia de um grupo de estilistas já estabelecidos, cuja carreira ainda não foi capaz de se consagrar globalmente. Vemos, então, artistas com 10, 20 ou 30 anos de carreira, batalhando por um prêmio de um milhão de dólares e uma mentoria com a Amazon, para ajudá-los a atingirem o status de marca global.

A verdade é que Making the Cut é extremamente confuso e, ao longo dos 10 episódios que compõe a primeira temporada, vemos que por muitas vezes nem mesmo Heidi e Tim entendem o conceito criado por eles. Assim, acabamos nos deparando com o painel de talentosos jurados tomarem decisões que parecem não fazer nenhum sentido.

 

O Prêmio

Heidi Klum e Tim Gunn

O reality começa se destacando por um ponto: o prêmio é, possivelmente, o maior já dado por um programa de competição. Nos Estados Unidos, prêmios de um milhão são raros, e os ganhadores costumam levar para casa apenas uma fração disso – Project Runway, que está há 18 temporadas no ar, “só” dá 250 milhões de dólares. E ao mesmo tempo em que isso serve como um incentivador ainda maior, esta quantia também já marca um dos muitos problemas com a competição.

Já é perfeitamente compreensível que US$ 1 milhão seja muito dinheiro. Mas Heidi e Tim simplesmente não conseguem esquecer isso, fazendo com que este detalhe se torne o mais importante de todo o Making the Cut.

Ficar o tempo inteiro relembrando do prêmio e usando a quantia como instrumento de feedback para todas as críticas torna-se cansativo e desgastante muito rápido — ainda mais quando somos lembrados disso pelo menos 20 vezes ao longo de um único episódio.

Muitas vezes, o prêmio exorbitante acaba levando os competidores a ficarem mais focados nisso do que em qualquer outra coisa, como, por exemplo, o processo de aprendizado ou até mesmo a visibilidade que eles estão tendo ao estarem ali.

E não só isso: no final de cada episódio, o melhor look ganha a oportunidade de ser vendido globalmente através da loja virtual da Amazon! Então mesmo que apenas um deles termine vitorioso, ainda sim todos tem a oportunidade única de terem suas criações sendo vendidas para todo o mundo.

 

Competição de Design ou de Costura?

Ainda que eu, particularmente, não goste de colocar frente a frente dois programas que são claramente diferentes, é impossível não comparar Making the Cut com Project Runway. Primeiro porque seus criadores são responsáveis pelos dois, e segundo porque Heidi e Tim fizeram do PR um programa extremamente influente para o mundo da moda. E ao tentar repetir isso, eles acabam se perdendo.

Os jurados, da esquerda pra direita: Naomi, Nicole, Chiara, Joseph e Heidi

Se você não assiste ao Project Runway, vou resumir o ponto a ser feito: os competidores sempre foram estilistas em ascensão ou iniciantes, competindo em tarefas que demandam de suas habilidades com costura – são eles os responsáveis por cada linha e fio da roupa. Em Making the Cut, a produção exclui parcialmente essa necessidade.

O maior problema é que isso só faz sentido sob uma perspectiva: os competidores do programa da Amazon são estilistas consagrados, com ateliês e costureiras profissionais que são responsáveis pela confecção de suas criações. Assim, uma boa parcela deles nem mesmo sabe usar a máquina de costura ou fazer moldes, já que sua atividade principal é criar, desenhar e conceituar. Mas tudo bem, certo? Errado.

Apesar de Heidi constantemente falar que “este não é um reality de costura“, ela e os jurados nunca deixam para lá a eficiência e capacidade de costura dos competidores, constantemente encontrando problemas nessas habilidades (ou a falta dela) e até mesmo eliminando participantes por conta disso.

Os competidores da primeira temporada

 

A Sombra da Desumanidade

Paralelamente a questão da costura, entramos em um outro problema: a memória do trabalho-escravo tão latente na indústria da moda. Ao falar para seus participantes que eles não precisam saber costurar, Making the Cut adiciona costureiras profissionais para preencher essa lacuna. Acontece que, com excessão da reta final, o público nunca vê essas costureiras.

No fim do dia de trabalho, os competidores guardam suas roupas anexando instruções de corte detalhadas. A equipe do programa vem, entrega essas roupas para as costureiras e elas então trabalham noite afora até o dia seguinte, quando os designers voltam para mais um dia de trabalho e precisam de suas peças finalizadas. Eles ficam apenas responsáveis por costuras elementares e pequenos ajustes de última hora.

 

Feedback Invisível

Para piorar todo o novo formato, o telespectador não pode ver a deliberação dos jurados. A edição apenas se limita a mostrar as rápidas reações dos jurados durante a passarela e algumas conversas individuais, cortando para o momento de feedback e eliminação.

O momento da deliberação e eliminação

Nesse momento, é o competidor que fala. Ele precisa defender sua visão, em uma conversa que pode “mudar tudo”. A crítica chave é que nós não sabemos qual é o “tudo”, uma vez que não temos acesso ao conteúdo de deliberação dos jurados. Assim, não sabemos a efetividade do discurso de defesa do competidor.

Ao fim, Heidi se limita a perguntar aos jurados se eles mudaram ou não de opinião baseado no discurso de defesa. E spoiler: 99% das vezes eles dizem um sonoro e monossilábico “Não”. E assim, Heidi avisa ao jogador: “desculpa, mas você não sobreviveu ao corte“.

 

Industrialização e Perda de Identidade

Por ser um reality focado na construção da “próxima marca global”, Making the Cut mostra um lado da indústria que vem sendo debatido e desconstruído muito nos últimos anos: o consumismo e desperdício. Diferente das temporadas recentes de Project Runway e o ano de estreia de Next In Fashion, da Netflix, o programa da Amazon parece ir contra este movimento.

Heidi e seus jurados não parecem muito preocupados com essas pautas e demonstram isso de forma indireta, quando, por exemplo, discutem com os competidores se eles estão dispostos a perder parte de suas identidades afim de atender um mercado global. Ou se eles estariam dispostos a produzir roupas em larga escala, invés de algo mais sob-demanda. Questionamentos que acabam tocando no ponto do consumismo e na criação industrial de roupas e acessórios, que entra em choque até mesmo com a visão e missão destes designers, que até então atuavam com demandas menores e linhas mais exclusivas.

A cada episódio os designers enfrentam um desafio temático diferente

O único momento em que vemos o reality tratar do problema do desperdício é em um desafio “improvisado”, em que os participantes precisam criar peças com os tecidos usados até então. Mas por ser supostamente “improvisado”, a ideia de “zero lixo” vem apenas como uma feliz coincidência.

 

Há Luz no Fim do Túnel?

Making the Cut não consegue ser um destaque tão grande quanto tenta ser, mesmo com a dupla Heidi e Tim, ou titãs como Naomi. Até mesmo a tentativa de “humanizar” a dupla de criadores, com curtos VTs desconstraídos de passeios e jogos na cidade, não funciona direito e fica dessonante de toda a edição.

O que pode ser considerado um positivo é ver um pouco da cultura das três cidades que o reality usa de pano de fundos e como os designers incorporam isso aos seus respectivos designs. Ao mesmo tempo, alguns desses competidores se mostram interessantes e podemos ir construindo certos laços de simpatia e amizade com eles – dois ou três em especial, mas principalmente o carismático Sander Bos –, ainda que muitas vezes vemos roupas que trazem apatia e uma simplicidade exagerada.

Mas para não acabar este texto só em críticas negativas, particularmente sou um grande fã do nome do programa. Making the Cut é um título muito inteligente, por brincar com seus muitos significados. Literalmente, a frase significa Fazendo o Corte. Assim, ela se diverte com a ideia de cortar e costurar roupas, com a ideia do “conseguir fazer parte do corte de competidores selecionados” e até mesmo com “sobreviver aos cortes e vencer o programa”. Mas obviamente só isso não é o suficiente para salvar o show.

É realmente triste ver que, ao final, Making the Cut está mais interessada na sua megalomaníaca grandiosidade do que em qualquer outra coisa. A parceria com a Amazon, as viagens ao redor do mundo, os titãs da moda, a marca global, o prêmio de um milhão. Tudo isso, adicionado à mesma dose, incapacita o programa de estabelecer um vínculo real e humano com o telespectador e acaba tomando decisões precipitadas e incoerentes – como a primeira vitória da franquia. Desculpa, mas não foi dessa vez. Vocês não sobreviveram ao corte.

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