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O (não Tão Distante) Pesadelo De The Handmaid’s Tale

O (não tão distante) pesadelo de The Handmaid’s Tale

“Uma caixinha de música com uma bailarina. O presente perfeito. Uma garota presa em uma caixa. Ela só pode dançar quando alguém abre a tampa, quando alguém lhe dá corda. Se essa é a historia que eu estou contando, devo estar contando para alguém. Sempre tem alguém, mesmo quando não tem ninguém. Eu não serei aquela garota na caixa”


A melhor série de 2017. É assim que grande parte dos críticos de cultura descreve The Handmaid’s Tale, inspirada no romance homônimo da escritora Margaret Atwood. Em setembro deste ano, o seriado conquistou o Primetime Emmy Award de Melhor Série Dramática, desbancando concorrentes de peso, como Stranger Things e House of Cards. A série, que estreou em abril, é uma produção da plataforma de streaming Hulu, ainda não disponível no Brasil – porém já considerada uma das principais rivais da tão aclamada Netflix.

A narrativa apresenta uma distopia. A República de Gilead, localizada no território norte-americano, é um país que possui um governo autoritário, teocrático e extremamente misógino. As mulheres são completamente objetificadas e controladas pelo Estado. A principal função agora designada ao sexo feminino se resume a um verbo: reproduzir. As aias (ou “Handmaid’s”) são mulheres férteis que se tornam propriedade de famílias de classe alta. Mensalmente, são estupradas pelos chefes da famílias (também chamados de “comandantes”), com o intuito de gerarem filhos para o tradicional lar.

“Bendito seja o fruto”, “abençoado seja”, “Sob o olhar Dele”. Esses são os cumprimentos utilizados agora nas conversas entre mulheres. Elas só podem conversar sobre assuntos supérfluos (como compras e  previsão do tempo) e são proibidas de ler – até mesmo os rótulos de produtos de supermercado são repletos de imagens, não de dizeres. Os episódios alternam cenas do presente com o passado e apresentam uma estética impecável. As cores verde e vermelho predominam, tanto na iluminação quanto no figurino.

Elizabeth Moss ao lado de Alexis Bledel, respectivamente como as personagens Offred e Ofglen

A série segue, primordialmente, a história da aia Offred (ou June, seu verdadeiro nome), considerada propriedade da família Waterford. Interpretada por Elizabeth Moss, a personagem é vítima de diversos tipos de violência ao longo dos dez episódios da primeira temporada. A atuação de Moss é sem dúvida um dos principais destaques da série: o espectador consegue compreender os sentimentos da protagonista apenas pelo seu olhar. Alexis Bledel, conhecida até então pela adorável Rory de Gilmore Girls, também nos prende com sua intensa performance. Ela interpreta Ofglen, companheira de Offred e uma das personagens mais bem construídas da narrativa. Destaque também para a comovente história de Janine, interpretada por Madeline Brewer.

 

Crítica Social

Margaret Atwood publicou o romance O Conto da Aia em 1985. A própria autora admite que, diante do conservadorismo crescente em diversas partes do mundo, a história é significativamente atual. “O que a torna tão moderna é o retrato do totalitarismo americano”, afirmou, na Feira de Frankfurt de 2017. Sobre as recentes denúncias de assédio que abalaram Hollywood, Atwood pontua: “Situações em que mulheres jovens são exploradas por homens poderosos são infelizmente comuns já faz anos. O que permite esse tipo de abuso são dinheiro, poder e advogados. Ao menos, já estamos vendo mudanças e homens poderosos foram desafiados pelas redes sociais”.

Margaret Atwood é a autora do livro que inspirou a série, tendo até mesmo feito uma ponta na produção do Hulu

As discussões que o romance e a série suscitam são de fato extremamente relevantes para os dias de hoje. Afinal de contas, uma sociedade que busca a todo custo controlar o corpo feminino não se difere tanto assim da nossa. Sabemos que, em pleno de 2017, são homens brancos engravatados que legislam sobre os corpos das mulheres – representação que no seriado não é diferente. Os episódios também provocam reflexões sobre a cultura do punitivismo e diferenças de classe, já que a sociedade de Gilead é extremamente violenta e desigual em muitos aspectos.

Apesar da significativa aprovação, a série também enfrentou algumas críticas. Um artigo do jornal El País, intitulado Por qué ‘The Handmaid’s Tale’ no es feminista (y otras series que sí lo son), defende que a série não é de fato tão progressista assim. Para a autora do artigo, que assina como HJ Darger, os personagens mais carrascos da série são do sexo feminino. “Os papéis de verdadeiras vilãs recaem sobre as mulheres em posição de poder – como Serena Joy e Tia Lydia ”, afirma. A observação é coerente, mas não invalida as tantas críticas sociais que o seriado apresenta.

Surpreendente do início ao fim, Handsmaid é uma das mais famosas e mais faladas séries de 2017, sendo muito bem produzida em inúmeros aspectos

Sabe-se também que parte do elenco considera a série como “humanista”, e não como feminista. Essa diferenciação é muitas vezes infeliz, pois não reconhece o movimento feminista como uma luta por direitos básicos. Não há dúvidas de que The Handmaid’s Tale é uma série que aborda temáticas que precisam urgentemente ser discutidas como a objetificação do corpo feminino, a cultura do estupro, submissão, rivalidade feminina e cultura punitivista. A primeira temporada é, do começo ao fim, um soco no estômago. O espectador deve estar preparado para cenas violentas e surpreendentes.

A segunda temporada, com previsão de estreia para abril de 2018, promete aprofundar em outros personagens (como Tia Lydia e a mãe de June) e trazer mais informações sobre a resistência ao regime. Resistência, aliás, é o conceito que representa a esperança de todas as mulheres, seja em The Handmaid’s Tale ou na nossa tão conservadora sociedade.


carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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