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Cinco Gays Entram Na Casa…

Cinco gays entram na casa…

E transformam a sua vida. Essa é, basicamente, a premissa de Queer Eye (“Olhar Gay“, traduzindo livremente). No programa, cinco homens gays, conhecidos como os Fab 5 (“Cinco Fabulosos“), formam um super time designado a auxiliar pessoas (conhecidos como “Heróis“) a mudarem suas respectivas vida para uma versão melhor.

Trabalhando na mesma linha que produções como What Not To Wear e Extreme Makeover: Home EditionQueer Eye é o reboot repaginado de Queer Eye for the Straight Guy, um programa estilo reality que teve cinco temporadas exibidas entre 2003 e 2007. Perdendo a parte do “for the…“, essa nova versão tem uma mudança fundamental em sua criação: enquanto QEFTSE buscava promover a aceitação dos Fabulosos (e de toda uma comunidade de LGBTQ+’s), QE considera que essa barreira já foi quebrada e agora busca promover o respeito de pessoas para com essa mesma comunidade, como se eles fossem o intermediários/representantes.

Assim como no original, cada um dos Fabulosos é expert em uma área de conhecimento. Assim, Antoni Porowski é o Expert em Comida e Vinho, Bobby Berk é Expert em Design (de Interiores), Jonathan Van Ness é Expert em Beleza, Karamo Brown é Expert em Cultura (uma espécie de life coach) e Tan France é Expert em Moda. Em 2003, essas áreas eram preenchidas por Ted Allen (“Conhecedor de Comida e Vinho“), Thom Filicia (“Doutor do Design“), Kyan Douglas (“Guru da Beleza“), Jai Rodriguez (“Abutre da Cultura“, mas de uma forma positiva) e Carson Kressley (“Cientista da Moda“), respectivamente.

Tendo Atlanta, no estado da Geórgia, Estados Unidos, como panos de fundo, a primeira temporada de QE estreou dia 7 de fevereiro de 2018, com oito episódios de 45 minutos cada (média). Assinado pela Netflix, que agora detém os direitos de produção e exibição, o reality rapidamente conseguiu aclamação da crítica, sendo seguido pela aprovação do público, que se emociona pelas histórias e se apaixona por cada um dos Fab 5.

Da esquerda para direita, Bobby, Karamo, Antoni, Jonathan e Tan

O grande trunfo da repaginação de Queer Eye não se restringe apenas a pavimentar um novo caminho para a comunidade LGBTQ+, mas também a se permitir ir além do que a série-mãe foi e aproveitar do espaço que foi aberto por ela. Se em 2003 o título deixava claro que os makeovers eram voltados para o Olhar Hétero, com a perda dessa segunda metade do título o programa possibilita que os gays sejam nomeados a ajudar mulheres e transgêneros (esse segundo grupo, no entanto, não é novidade na franquia).

A primeira temporada tem um grande foco em estabelecer quem são os Fabulosos e no que eles são excelentes, colocando-o em histórias que comovem o público e são fáceis de se relacionar. O primeiro episódio, por exemplo, traz o Herói Tom, cuja frase de “efeito” é Feiura Não Tem Conserto, que dá nome ao capítulo. Tom está acima do peso, tem um barba longa, áspera e mal cuidada, um rosto com problemas dermatológicos e usa óculos. Para ele, o combo quer dizer que ele é uma pessoa feia, mesmo sendo um cara completamente formidável, carinhoso e aberto aos seus sentimentos. Então, quem nunca se sentiu ou se sente assim? Tom é apenas mais uma pessoa vítima de sua auto-consciência, que consequentemente precisa da ajuda dos queers para mudar a sua vida e até mesmo conseguir a garota que ele deseja.

Assim como Tom, há Neal (S01E02), Cory (S01E03), William (S02E02) e muitos outros. Homens que apesar de não serem nenhum padrão de beleza, são bonitos de suas próprias formas, são pessoas belas e/ou sexy para as que as amam, carregam uma grande personalidade e pura simpatia. Há também pessoas como Tammye (S02E02) e Bobby (S01E05), que são completamente religiosas mas não deixam a religião ditar tudo em suas vidas e estão realmente abertas a amarem o próximo. Ou como Skyler (S02E05), que passaram a vida inteira se identifica com o gênero diferente daquele que elas nasceram. Gays que não tem coragem de sair do armário para os familiares, como AJ (S01E04). Pessoas introvertidas como Joe (S01E07) ou até mesmo num espectro mais simples, como Leo (S02E03), que só querem ser o melhor pai que podem ser, ou Sean (S02E07), que estão entrando na fase do jovem adulto e querem descobrir quem elas são no mundo. Há todo o tipo de pessoa, para todos os gostos.

Tom é, entre os fãs, um dos Heróis mais queridos do programa. Spoiler alert: ao final do episódio, ele consegue sua amada de volta e, meses depois, como noticiado com a estreia do programa, eles até mesmo se casam!

Por ser uma série que também quer promover um diálogo, é muito interessante e bem colocado como determinadas conversas acontecem no programa e como elas se encaixam na vida de cada um dos FabulososKaramo, por exemplo, é um homem negro, o que já é difícil em qualquer lugar do mundo. Não só isso, ele é negro E gay, uma combinação que também não o ajuda em um mundo cheio de racismo e homofobia. Mas Karamo é cheio de vida e não se deixa segurar, mesmo quando em um dos episódios (S01E03), o Herói é Cory, um policial.

Não é preciso ser um gênio para entender o tipo de sufoco que Karamo possa sentir na presença do Herói. Nos últimos anos, a brutalidade policial contra negros, nos Estados Unidos, tem sido ainda mais alarmante, com episódios que deram origem e demonstram a necessidade de movimentos como o Black Lives Matter. Portanto, em um determinado momento, o foco do episódio é promover um ambiente onde essas duas pessoas, de realidades tão diferentes, possam conversar e expor suas visões, medos e desejos. Karamo quer que os policiais não sejam tão discriminatórios, não usem a força de forma desnecessária, não atirem e matem jovens homens negros por acharem que eles estão indo pegar uma arma, quando na verdade é apenas o celular ou a identidade. Cory entende perfeitamente isso e o maior desejo dele é que esse tipo de visão não seja estendidos a todos os policiais, porque há sim aqueles que não concordam com essas situações, se propõe a ajudar e levam muito a sério a proteção dos cidadãos sem qualquer tipo de preconceito.

Cory não é apenas um policial, mas também um apoiador do Presidente Donald Trump, pivô de polêmicas como racismo, assédio sexual e preconceito com a comunidade LGBTQ+. Em frente ao boné com os famosos dizerem do Presidente dos EUA, “Faça a América Melhor de Novo”, os queers tratam o assunto com leveza, tentando mostrar a visão deles para com um político tão preconceituoso

Nessa mesma linha estão Bobby e Tammye, duas pessoas que foram criadas dentro da Igreja e levam a palavra do Senhor muito a sério. Bobby (S01E05) é pai de seis filhos, casado e muito ativo na sua igreja. Desde criança ele aprendeu que gays são abominações e devem ser evitados. Mas com o passar dos anos, ele percebeu que na verdade as coisas não eram assim e muitas vezes os LGBTQ+ eram mais exemplares que pessoas héteros, o que mudou a sua cabeça; ele não só passou a aceita-los, mas também a promover que sua família e amigos também o fizesse, estando abertos ao novo.

Tammye (S02E02) segue pelo mesmo caminho, mas viveu o preconceito de forma mais íntima, quando seu filho relevou seu gay. O episódio revela que nos primeiros momentos, a relação dos dois ruiu completamente e foi apenas quando ela teve câncer e precisou repensar sua vida que ambos se acertaram e Tammye pediu desculpas ao filho por ter errado tão feio com ele, por não tê-lo amado acima de tudo. O evento acabou gerando outras sequelas, fazendo com que seu filho saíssem da Igreja e parasse de cantar em corais, sua maior paixão, com medo de que ele não fosse aceito pela comunidade religiosa.

Nesse arco, Bobby é quem tem o maior relacionamento, por ter vindo de uma família extremamente religiosa, que o expulsou de casa quando ele “saiu do armário”. Ele conta ter passado boa parte de sua vida se odiando por ser algo que ele tinha ensinado ser tão “abominável”. Foi apenas depois de encontrar sua Família Escolhida (nome dado ao círculo de amigos que uma pessoa LGBTQ+ tem, que as vezes tomam o lugar da família biológica, consequência de algum atrito entre a pessoa e seus parentes de sangue, como foi o caso do Fab de Design) que ele começou a entender que o problema nunca tinha sido ele. Porém, após tantos anos sofrendo, retornar ao meio religioso ainda é um passo muito difícil para ele, algo que fica explícito com o episódio da Heroína Tammye, quando o Expert se recusa a entrar na Igreja (“Você parece um daqueles gays que acham que vão queimar assim que pisar dentro da Igreja“, brinca Karamo).

No episódio, não só Bobby tem um momento espiritual com Tammye, mas Antoni também acaba tendo um momento emocional especificamente nesta cena

De forma mais breve, Tan tem o seu próprio arco de relacionamento. O Queer é um inglês de pais paquistaneses, o que já traz uma outra carga para o fato dele ser um homem gay. Mesmo com a aceitação recente da família, Tan ainda vive sob a expectativa de sua cultura, onde ele tem que ser um homem bem casado, com um bom trabalho, sucedido, contido, educado. Coisas que ele reflete e se relaciona com Neal (S01E02).

Em contra partida, Jonathan e Antoni não possuem Heróis específicos com quem se “enturmar”, mas nem por isso brilham menos. Enquanto Antoni é o grande “colírio para os olhos” do elenco, Jonathan é o viado completo. Assim, no combo de boy magia e cozinheiro, o primeiro Fab acaba arrancando suspiros e é um dos primeiros com quem o público se apaixona, principalmente quando adicionado a sua personalidade leve. Van Ness(a), por sua vez, é dono do maior catchphrase do programa (“Can you believe?“, ou “Você acredita?“), sendo extremamente divertido, animado, afetado, dono de um grande coração, um longo cabelo cheio de vida e uma personalidade iluminadora.

Não só preocupada em fazer com que os queers sejam ouvidos, o programa também possibilita que eles ouçam e vejam as coisas a partir de outras perspectivas. Um grande exemplo disso é Skyler (S02E05), um homem trans. O primeiro da nova série passou pela cirurgia de redesignação de sexo algumas semanas antes das filmagens do episódio, o que possibilitou a produção gravar cenas do grande acontecimento, que é exibido de forma breve aos espectadores, que assistem os queers assistirem.

Skyler é um homem muito ligado a comunidade, sendo bastante vocal e engajado em assuntos LGBTQ+, inspirando sua vida em Todrick Hall, uma personalidade e youtuber norte-americano

É um belo episódio para mostrar que ignorância existe em qualquer lugar, inclusive dentro da comunidade LGBTQ+, mas que nunca é tarde para buscar entender melhor e expandir seus horizontes. Tan revela que até aquele momento, ele nunca tinha realmente conhecido uma pessoa trans e nunca havia entendido porque alguém se submeteria a um cirurgia que é tão pesada emocionalmente, fisicamente e psicologicamente, “só” pra se sentir no gênero certo. Mas é após assistir o vídeo e conversar com Skyler que ele finalmente entende, também dando a oportunidade de voz ao rapaz. Assim, Skyler pode contar sua própria história, o motivo disso ser tão importante e o quanto ele sofreu se sentindo no corpo errado e o quanto ele e seus amigos batalharam para reunir o dinheiro para que ele pudesse finalmente ser, por fora, o que ele sempre foi por dentro.

Queer Eye estreou sua segunda temporada no dia 15 de junho, apenas quatro meses após a primeira chegar à Netflix, tamanho o sucesso do programa. Não só isso, o novo ano veio bem no meio do mês do Orgulho LGBTQ+, celebrado em todo o mundo desde a Rebelião de Stonewall, em 1969, quando a comunidade queer se rebelou contra policias em uma invasão ao bar Stonewall, em Nova Iorque, resultando no que é considerado o evento que deu origem ao movimento de libertação e luta pelos direitos LGBTQ+ no país.

Em apenas quatro meses, os Fab 5 foram colocados no radar mundial do mundo do entretenimento e LGBTQ+, viajando o mundo para promover a série (e até mesmo gravando um episódio especial na Austrália, disponível no canal norte-americano da Netflix, no Youtube)

Assim, QE se prova muito mais do que apenas um divertimento, mesmo sendo um excelente e delicioso divertimento. O programa é político, é educativo, é certeiro em promover conversas, em mostrar que há história que merecem serem contadas e ouvidas, em deixar claro que ser LGBTQ+ não é apenas uma fase e que a comunidade não vai mais a canto algum e nem vai mais permitir ser silenciada ou marginalizada. Queers não são melhores ou piores que héteros. Queers são pessoas, tem sentimentos. Queers tem amigos, famílias biológicas, famílias escolhidas, trabalham, estudam, pagam os impostos, comem, andam, respiram, falam, ouvem, são afeminados, são contidos, são negros, são brancos, são paquistaneses, são barulhentos, são calmos. Queers são diferentes e individuais, como qualquer outra pessoa. Queers nasceram assim.


[BÔNUS] Antoni de crop top no clipe de música tema do programa:


vics

tem 22 anos e é formado em Jornalismo pela PUC Minas. é o Diretor de Arte da revista, sendo o responsável pela criação da identidade visual da zine. ainda, escreve matérias sempre que tem uma boa pauta. ao todo, já assistiu o correspondente a 13 meses em Séries, três meses em Filmes e em 2017 foram dois meses em reprodução de Música.

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