Precisamos falar de Manic Pixie Dream Girl

Precisamos Falar De Manic Pixie Dream Girl
[tempo de leitura: 5 minutos]

Dos mesmos criadores do “Sad Boy”, vem aí a garota que nasceu para salvá-lo!


EEu cresci assistindo filmes de comédia romântica com as minhas irmãs mais velhas e a cada título eu queria me tornar mais e mais uma mulher como as personagens principais. Eu (e muitas outras) achava incrível a personagem da mulher-menina, aquela que tem o espírito aventureiro incomparável, uma vontade constante de viver e conhecer novas coisas, que não tem medo e que, acima de tudo, vai estimular o homem a ser alguém melhor. Afinal, é para isso que ela foi criada. Mal sabia eu que essa figurinha já estava ficando batida na cultura pop, com o codinome de The Manic Pixie Dream Girl.

O termo, longo e descritivo, foi cunhado pelo crítico de cinema Nathan Rabin, em seu texto sobre Tudo Acontece em Elizabethtown (2005), de Cameron Crowe. Ele criou a expressão para descrever a comissária de bordo vivida por Kirsten Dunst, uma jovem empolgada com tudo a sua volta, que está sempre feliz e disposta. Desde então foi difícil não identificar esse clichê cinematográfico em filmes anteriores e nos lançamentos subsequentes. A lista é longa e vai desde Bonequinha de Luxo até (500) Dias Com Ela.

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Kirsten Dunst e Orlando Bloom em “Tudo Acontece em Elizabethtown” (2005)

O conceito todo da garota ideal é paradoxal: a jovem precisa ter o coração e a impulsividade de uma criança, mas a maturidade e a autossuficiência (e o corpo, é claro) de uma mulher adulta. Sendo tão boa e dona de si, por que deveria o homem fazer algo em troca, não é mesmo? E aí que mora o perigo, pois como a gente bem sabe “a vida imita a arte”.

A escritora e roteirista Laurie Penny explicou em uma coluna da revista britânica New Statesman que essas personagens geram implicações na vida real. “Os homens crescem esperando ser o herói de sua própria história. As mulheres crescem esperando ser a atriz coadjuvante de outra pessoa“, escreve Penny.

Na visão da escritora, a Manic Pixie Dream Girl não é apenas uma fantasia na tela: ela é um modelo para a vida das mulheres jovens. “As mulheres se comportam de formas que foram sancionadas em histórias escritas por homens”. A roteirista afirmou também que o conceito dessa musa serviu como modelo para milhares de meninas viverem sua adolescência e começo de vida adulta nos anos 90 e 2000.

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Zooey Deschanel e Joseph Gordon-Levitt em “(500) Dias com Ela” (2009)

Rabin define a MPDG como uma musa que tem como objetivo transformar meninos em homens de verdade. Ela precisa ver no seu par todo o potencial que nem ele sabe que existe e mostrar para o rumo certo a ser tomado. E no meio dessa experiência incrível para o homem, ele fica isento de qualquer reciprocidade e responsabilidades na relação.

O Tom (Joseph Gordon-Levitt), de (500) Dias com ela, é o exemplo perfeito deste homem. Enquanto um romance intenso acontece na cabeça dele, a Summer (Zooey Deschanel) fica cada vez mais infeliz, dando sinais óbvios de que está insatisfeita. Esse mesmo filme, aliás, cita outro título que apresenta o epítome da MPDG, o clássico A Primeira Noite de um Homem, com a encantadora Mrs Robinson (Anne Bancroft).

 

 Maniac Pixie Dream Girls Famosas no Cinema

Identificar a MPDG nos filmes é fácil demais. O primeiro passo é procurar por meninas descoladas, que não são exatamente as mais populares já que gostam de algumas coisas “estranhas”, como The Smiths. Elas são “diferentes de todas as outras”, pelo menos sob o olhar do herói da história. Se ela tiver um senso de aventura excepcional, cabelo colorido, uma carinha fofa e qualquer quantidade mínima de senso de humor: bingo! Você achou a garota está prestes a salvar um homem.

 

Claire Colbern / Tudo Acontece em Elizabethtown

Como mencionado acima, a personagem Claire Colburn, interpretada por Kirsten Dunst, foi a primeira a ser chamada de Elizabethtown MPDG. Claire é uma comissária de bordo que ajuda Drew (Orlando Bloom) a superar a morte do pai. É claro que isso acontece enquanto ela o ensina tudo sobre os mistérios da vida e como desvendá-los. Ela mesma não tem nenhum desejo próprio e parece só existir para fazer a vida dele ter sentido.

 

Sam / Hora de Voltar

Sam (Natalie Portman) é a elucidação perfeita da Manic Pixie Dream Girl. Ela tem tudo de diferente: sua casa é lotada de labirintos de hamster e usa um capacete prescrito por médicos, bem doidinha, do jeito que os heróis adoram. Seu parceiro é o ator Andrew (Zach Bragg), que está desconsolado após a morte da mãe e encontra em Sam seu porto seguro. Ela o ensina a ouvir rock indie, dançar e cantar na chuva e aproveitar as pequenas coisas da vida. Mas qual o objetivo dela? Não interessa, ela só está ali para transformá-lo.

 

Sara Deever / Doce Novembro

Em Doce Novembro, Keanu Reeves interpreta Nelson, um executivo ocupado que conhece Sara (Charlize Theron) após ser reprovado no teste da autoescola. Ela leva esse homem *desconhecido* de volta ao seu apartamento para morar lá literalmente por um mês e, no meio tempo, mudar a vida dele.

 

Mas… E Então?

No final das contas, a personagem MPDG é melhor do que uma femme fatale, no que diz respeito ao machismo, mas isso não significa nada. Tanto na arte quanto na vida, o ideal Manic Pixie Dream Girl existe porque muitos homens permanecem intimidados por mulheres que têm preocupações e objetivos próprios. “Merecemos poder escrever nossas próprias histórias em vez de existir como personagens de apoio nas histórias para homens”, assinala Laurie Penny.

A indústria do cinema influência milhares de meninas, todos os dias, a serem qualquer pessoa menos elas mesmas. Se quando criança eu recebo como exemplos meninas que têm como principal característica inspirar homens é isso que eu absorvo como exemplo. A lógica é simples e a equação não é nada nova.

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Natalie Portman e Zach Bragg em “Hora de Voltar” (2004)

O mercado já avançou muito, em especial nos últimos anos com a inserção de personagens fortes como Capitã Marvel e Jessica Jones, mas ainda tem muito para melhorar. Enquanto isso, fica como lembrete uma frase dita pela irmã de Tom, em (500) Dias Com Ela: “Só porque uma garota bonita gosta das mesmas coisas bizarras que você não significa que ela é a mulher da sua vida”.

 

Filmes Que Desafiam as MPDG

bruna nogueira

tem 22 anos, é jornalista, feminista, e viver para ler e contar histórias. com um senso de humor negro, faz piada de tudo e não passa um dia sem escrever.

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