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Um Filme Ofuscado Na Sombra De Seu Antecessor

Um filme ofuscado na sombra de seu antecessor

Os primeiros 15 minutos de Sicario: Dia do Soldado funcionam como uma contextualização em duas frentes. A primeira delas, demonstra os acontecimentos que vão nortear toda a operação militar que ocorre nas 2 horas de projeção. A segunda, não intencional, acaba demonstrando ao espectador a sensação de que a troca no comando do longa, mais perceptível na falta de um diretor com tanta personalidade quanto Denis Villeneuve, evidencia o brilho de Taylor Sheridan (roteirista do primeiro longa que retorna para trabalhar no texto de Dia do Soldado) em compreender que na falta de uma mão mais carregada na direção a verdadeira virtude do longa estaria nos bons personagens de sua história e suas dinâmicas.

Desta forma, Dia do Soldado demonstra um roteiro que, mesmo que estruturado de forma muito similar a de Sicario: Terra de Ninguém(2015)é inteligente na forma como se constrói como um “plot driven movie” e acaba se transformando em um“character driven movie”. O importante de ressaltar é que essa opção não significa que o longa não possui uma história interessante ou um enredo bem estabelecido, uma vez que as bases para a ação são bens construídas e que existe uma linha narrativa clara, mas há um enfoque na forma como o desenvolvimento do texto se preocupa mais em trazer mudanças interessantes na dinâmica dos personagens, puxar uma carga de pessoalidade maior para as relações e apresentar nuances existentes em cada um deles. Ainda, o longa tem um discurso claro e latente a respeito de temáticas contemporâneas e intrínsecas na sociedade americana, combinando duas das bandeiras mais levantadas no que diz respeito a sociedade civil americana atualmente: a luta e o medo perante o terrorismo e a problemática relação com a longa fronteira mexicana.

Desta base “plot driven”, voltamos os olhos para a fronteira com o estado do Texas e somos apresentados a um contexto em que os carteis mexicanos passam a lucrar com o transporte ilegal de imigrantes para terras estado-unidenses, abrindo espaço para que no meio dos milhares de civis que tentam adentrar o país estejam alguns terroristas disfarçados. Quando um grupo de homens-bombas explode um supermercado em uma cidade texana, o governo dos EUA procura a retaliação ao iniciar uma operação secreta na tentativa de provocar uma guerra entre os cartéis, minando suas agendas de transporte ilegal na fronteira e instalando o caos em suas agendas.

A partir dessa premissa, a trama se desenvolve e segue sempre um caminho mais voltado para o que seus personagens tem a apresentar, a revelar de cargas emocionais e relações passadas e de como vão se comportar na perigosa e tortuosa jornada a frente. Assim, Benicio Del Toro e Josh Brolin tem espaço para brilhar e preencher a tela com a química natural e atrativa que possuem. Todo o elenco secundário está bem, principalmente a jovem Isabela Moner, que demonstra uma amplitude dramática impressionante para uma jovem atriz. O maior destaque vai para a atuação de Del Toro, que é capaz de transmitir uma imponência e todo um semblante amedrontador que transformam Alejandro na figura perigosa e temida que é.

Em um filme que conta com diversos retornos, a perda de Denis Villeneuve na direção faz com que o filme perca, também, sua característica forte de inquietação. É verdade que Stefano Sollima assume bem o cargo com escolhas interessantes de planos, principalmente nas sequências de ação, mas falta inventividade e um pulso na construção da atmosfera preocupante e enervante que o 1º longa conseguia também. Como dito, logo na abertura da película quando acompanhamos uma operação militar durante a noite somos imediatamente lembrados da forma inventiva e magistral com que Villeneuve conduziu o desfecho de Sicario: Terra de Ninguém, e a falta de uma sequência emblemática em Dia do Soldado acaba resumindo bem a falta do “algo a mais” que esperava de Sollima.

A trilha sonora parece tentar emular o trabalho sensorial enervante que Jóhann Johannsson entregou no primeiro Sicario, mas a composição feita por Hildur Guõnadóttir acaba sendo muitas vezes perceptível e pouco suave, quebrando com a experiência diegética do longa. Completando as diversas perdas nas partes técnicas, a substituição de Roger Deakins por Darius Wolski no comando da cinematografia acaba sendo, talvez, a mais sentida. Wolski faz um ótimo trabalho e demonstra um olhar interessante na forma como trabalha a luz nas cenas noturnas e como capta o rosto dos atores em cenas de poucas luz, mas imaginar as tomadas longas que Villeneuve faria sobre os vastos cenários áridos do Texas e das cidades mexicanas em sua fronteira, tudo filmado pelas lentes de Deakins, acabam trazendo quase que um sentimento nostálgico do primeiro longa e demonstrando as possibilidades que este segundo não alcançou.

Mesmo que com uma dificuldade de sair da sombra de seu antecessor, Sicario: Dia do Soldado dá sequência a uma história intrigante, poderosa e que possui personagens carismáticos, interessantes e complexos o suficiente para carregarem o longa. Se Sheridan sempre pensou Sicario como uma franquia de três filmes, que para este possível desfecho tenhamos um comando na direção que se destaque tanto quanto seus personagens.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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