fbpx
"Sonic: O Filme" diverte pela forma descomplicada que trabalha as sequências de ação, na mesma medida que soa genêrico e sem personalidade.

“Sonic: O Filme” diverte pela forma descomplicada que trabalha as sequências de ação, na mesma medida que soa genêrico e sem personalidade.


DDe todas as mídias e formas de arte que servem de inspiração ou de materiais bases para adaptações cinematográficas, os games demoraram mais do que qualquer outra a saltar aos olhos de Hollywood. Contudo, com o desgaste aparente dos filmes de quadrinhos e super-heróis, parece que o potencial narrativo e de bilheteria das versões nas telonas dos jogos de videogames finalmente terão sua chance de ganhar vida.

É desse contexto que o projeto de Sonic: O Filme ganhou força e, também, acumulou polêmicas. A principal delas, qu e vai se tornando prática comum em Hollywood, se deu a partir da reformulação completa do visual do personagem-título que, após reveladas as primeiras imagens do longa, recebeu duras críticas do público na internet. Seguido pelo consequente atraso do lançamento devido as “refilmagens” e trabalho na pós-produção, o filme chegou aos cinemas para reafirmar o que se tem visto até então nas adaptações de games: os materiais fonte servem apenas como inspiração e base para apropriação de personagens e construção de universo, mas não se transporta para as telonas uma profundidade do cânone dos jogos.

https://www.youtube.com/watch?v=OsyVeiW3CZ8

A escolha por essa forma de adaptação cria duas situações curiosas com o público. A primeira delas é que o espectador vai à sala de cinema com a expectativa de reconhecer na tela algumas semelhanças, easter eggs, características dos personagens (sejam na personalidade ou nos poderes e habilidades), dentre outros elementos nostálgicos da experiência de se aventurar nos jogos. Essa relação é também preponderante para esses novos filmes, já que seria minimamente ingênuo ignorar que os estúdios apostam nestes produtos para justamente com essa fácil conexão com o público, atingir número altos na bilheteria.

Pôster nacional

O outro lado dessa faca de dois gumes que fica evidente no filme do ouriço azul, é a falta de força na conexão do espectador com o que é apresentado na tela. O roteiro assinado por Patrick Casey e Josh Miller não consegue construir conexões reais entre os personagens e, consequentemente, essa falta de sinergia passa para quem assiste Sonic: O Filme e acaba encontrando uma experiência vazia na tela. Não há, em momento algum, sucesso ou até mesmo uma tentativa de entregar a catarse como a de segurar um controle na mão e comandar as ações do personagem de um game, algo que pode prejudicar a experiência de quem já criava expectativa pelo longa.

No centro de toda essa problemática, está a história de Sonic (dublado por Ben Schwartz), um ouriço com poderes de velocidade supersônica que se vê obrigado a viver na Terra, escondido da humanidade e acompanhando o dia a dia de Green Hill, uma pequena e pacata cidade suburbana do interior dos EUA. Afastado de convivência e sofrendo com solidão, Sonic encontra uma amizade com o xerife Tom (James Marsden) e se vê em uma encruzilhada quando o excêntrico e maluco Doutor Robotinik (Jim Carey) passa a persegui-los enquanto tentam chegar a cidade de São Francisco para encontrar os anéis do ouriço, capazes de abrir um portal para ele viajar a outro planeta e ficar em segurança.

Há quem diga que pedir por profundidade, que inclusive falta em peso para Sonic: O Filme, é algo esdrúxulo para uma película desta proposta. Não que houvesse da minha parte alguma expectativa de discursos ou temas profundos nas nuances do filme, mas o diretor Jeff Fowler não adicionar nenhum tipo de estofo ao roteiro fraco, que se escora na repetida jornada de dois heróis (Sonic e Tom) que buscam se encontrar no mundo e, só se realizam ou fecham um arco – que não consegue ser nem dramático, nem apresentar desenvolvimento de fato – ao entenderem a relação de amizade que tem.

O ouriço azul Sonic e o policial humano Tom

Dentro dessa jornada, existe a materialização de toda essa transição em uma roadtrip pela costa Oeste dos Estados Unidos, com a dupla central da trama passando por situações que representam e reafirmam os valores estadunidenses como trajetória para esse aprendizado. Desde a concepção de Tom como o xerife virtuoso de uma cidade suburbana interiorana, passando pela reunião de motoqueiros festeiros em uma parada na estrada, à chegada na cidade grande símbolo do Oeste estadunidense e até o retorno para a pequena cidade onde Sonic, de fato, controla seus poderes e defende seu amigo e a cidade. Todas essas situações servem a um roteiro sem coesão e a uma direção operante que falham em construir algo mais forte, deixando se exaurir o potencial para se discutir tais temas e representações no filme.

Outra característica da pouco inspirada direção de Jeff Fowler é a falta de criatividade para as sequências de ação, que repetem o efeito do slowmotion utilizado com frequência em outros filmes recentemente, caindo em uma utilização genérica dos poderes do protagonista. Por outro lado, Fowler opta por sequências de ação descomplicadas e limpas, que divertem justamente por apostarem na simplicidade dos confrontos e na abordagem quase que lúdica de um Sonic que parece se divertir ao mesmo tempo que enfrenta os desafios.

O megalomaníaco Doutor Robotinik

É verdade que essa opção funciona e não atrapalha na percepção e entendimento das lutas, mas por Sonic: O Filme se tratar de um filme sobre um ouriço extraterrestre supersônico, pelo menos o uso dos poderes poderia ser um pouco mais ousado e caminhar para um recorte mais fantasioso.

Em um filme que falta estofo e arrojo, sobressai os poucos pontos que carregam personalidade própria. Apesar da polêmica e de reforçar uma relação problemática entre espectador e estúdios, cerceando a criatividade dos realizadores a partir da demanda de público, a correção do visual de Sonic funciona e entrega um personagem com texturas, vivo e real. James Marsden segura as pontas ao viver um xerife Tom virtuoso, engraçado e com bom timing cômico para as interações, mas sua falta de vontade para adicionar qualquer drama a encenação prejudicam a relação sentimental que é construída entre seu personagem e o protagonista.

O grande destaque é a abordagem afetada e irruptiva de Jim Carey para dar vida ao Doutor Robotnik. Sua natural habilidade para o humor físico e expressivo agregam na caricatura do vilão, que se apresenta como uma ameaça pouco preocupante verdadeiramente, mas divertida como um difícil chefão de videogame.

Talvez daqui a 10 anos, caso as adaptações de games conquistem um espaço consolidado como a galinha dos ovos de ouro da vez para Hollywood, vamos olhar para trás e ressignificar Sonic: O Filme como um dos precursores de um período em que ainda se entendia as possibilidades de levar para as telas essa outra mídia. Por enquanto, a primeira adaptação liveaction de Sonic acaba por ser uma aventura divertida, porém tão vazia, que esquecemos tão rápido quanto seu personagem título corre.

Compartilhe

Twitter
Facebook
WhatsApp
Telegram
LinkedIn
Pocket
relacionados

outras matérias da revista

Especial
ZINT

Os indicados ao OSCARs 2018

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas divulgou no dia 23 de janeiro os indicados à 90ª edição do Oscar. Em 2018, a cerimônia de entrega acontecerá no dia 4 de março e terá pelo segundo ano consecutivo apresentação de Jimmy Kimmel, do programa Jimmy Kimmel Live!. A cerimônia já conta com algumas marcas importantes como a indicação de Greta Gerwig como Melhor Direção, pelo filme Lady Bird – É Hora de Voar, tornando-se somente a 5ª mulher a ser indicada na categoria. Outra mulher que conquistou uma marca importante foi Rachel Morrison, por seu trabalho em Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi, que

Leia a matéria »
Back To Top