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Shiki Oriori: Sabores Da Juventude

Shiki Oriori: Sabores da Juventude

  • Filmes

“Shiki Oriori: Sabores da Juventude” traz três curtas orientais que falam sobre nostalgia e saudade, mas grande parte falha em ser mais memorável.


Há pouco mais de um ano, a ZINT publicou matéria sobre o vigésimo aniversário da Netflix e seus planos de expansão. Sem perder tempo com grandes comemorações, a empresa anunciou no decorrer de 2017 estratégias para manter sua hegemonia frente aos demais serviços de streaming. E o serviço de streaming tem cumprido com o prometido. De janeiro a outubro deste ano, a Netflix gastou cerca de 6,9 bilhões de dólares na aquisição e produção de filmes e séries de diversas linguagens e gêneros.

A empresa tem apostado em grandes nichos, principalmente no público fã de animes e demais produções orientais. Os lançamentos de animações japonesas na plataforma foram expressivos nos últimos doze meses. Compostos majoritariamente de títulos já consagrados em outras mídias, pode-se dizer que quase todos eles trouxeram resultados positivos à gigante de streaming, sendo que por outro lado o fracasso veio com as tentativas de reboot e adaptações live-actions, que até o momento não conseguiram agradar crítica e público. Algo que a Netflix parece ter como obsessão e tenta aprimorar.

O meio termo é tão singular que se resume a um longa: Shiki Oriori: Sabores da Juventude (também conhecido como Si Shi Qing Chun, título original em chinês, e Flavors of Youth, na versão internacional). A coprodução nipo-chinesa teve seus direitos de distribuição mundial adquiridos pela Netflix antes mesmo de estrear no Anime Expo Premiere, realizado em julho. Desenvolvido pelos estúdios CoMix Wave Films e Haoliners Animation League, o filme chegou ao catálogo da gigante em agosto e, apesar da divulgação modesta, ínfima pode-se dizer, as expectativas da empresa foram altas. A aposta no título foi estratégica: aproveitar do sucesso estrondoso de Your Name (2016), a maior bilheteria de todos os tempos no Japão, para emplacar mais um anime de grande retorno comercial.

Shiki Oriori, era, até aquele momento, a mais recente obra da produtora CoMix Wave Films, responsável pelas aclamadas animações do japonês Makoto Shinkai, diretor e roteirista de Your Name, O Jardim das Palavras (2013), Cinco Centímetros por Segundo (2007), entre outros. Contudo, a tentativa de surfar na popularidade de outro filme não funcionou muito bem, não conseguindo agradar o público como se esperava. O filme é uma antologia que tem como proposta enaltecer a máxima “a felicidade está nas coisas simples”. Ao contar três histórias cotidianas por meio de curtas ambientados em cidades da China, cada um de um diretor diferente (dois chineses e um japonês), o longa retrata de maneira nostálgica e sentimental as vivências simples da juventude pautadas em questões universais como comida, família e amor.

 

O Macarrão de Arroz

A primeira trama de Shiki Oriori gira, quase que exclusivamente, em torno do Bifum San Xiam, macarrão típico da cidade natal de Xiao Ming (Crispin Freeman). Narrada em primeira pessoa pelo jovem adulto, a história é ambientada na capital Pequim, mas as imagens que predominam são as lembranças de Xiao Ming no período da infância a adolescência. O enredo é interessante. A perspectiva de acompanhar o prato tradicional é relevante e se adéqua as fases vividas pelo protagonista. Por outro lado, peca pelo excesso de narração em off, resultando na escassez de diálogos. O personagem anuncia seus sentimentos a todo momento e as cenas pouco retratam a tristeza narrada, pois quase não recriam as situações que evidenciam a melancolia pretendida.

O curta é o mais dramático dos três. A trilha sonora tem os característicos pianos e violinos em tom melancólicos, mais evidentes conforme a história se desenrola. Um tipo de música esperado para o desfecho previsível. Dirigido por Jiaoshou Yi Xiaoxing, O Macarrão de Arroz apresenta arte visualmente bonita. As cenas detalhadas do processo de preparo do macarrão são ricas em cores, provocam o apetite e mexem com os sentidos, pois fazem imaginar o cheiro e sabor da refeição. Quase um MasterChef em anime.

 

Nosso Pequeno Desfile de Moda

Dirigido por Yoshitaka Takeuch, diretor de CGI de Your Name, o segundo curta figura como o pior da coletânea. O enredo ambientado em Guangzhou, uma das maiores cidades do sul chinês, conta a história das irmãs Yi Lin (Evan Rachel Wood) e Yi Lu – uma famosa modelo em crise e uma estudante de design aspirante a estilista, respectivamente. Aqui, obviamente, seria de se esperar que o que move a trama é a ligação das irmãs com roupas. Na prática, no entanto, as roupas são apresentadas em um plano de fundo sem muita relevância. A forma como as vestimentas são introduzidas passa a sensação de foram adicionados a trama quase que de última hora, para suprir a necessidade de algo simples e rotineiro, um dos temas de Shiki Oriori.

Meio desnorteada, a história foca em clichês da indústria da moda, retratados diversas vezes em outras películas hollywoodianas. Lin sustenta todos os estereótipos de modelo egocêntrica e fútil. A crise por envelhecer em uma profissão que exige padrões de beleza desenrola o enredo, mas nada que surpreenda. O curta foge da premissa de retratar os aspectos culturais da China, mas, ao menos, apresenta um aceitável desenvolvimento de personagens. Se Takeuch tivesse investido mais neste último quesito, muito provavelmente o resultado para quem assiste seria mais satisfatório.

 

Amor em Xangai

Última parte do filme, Amor em Xangai é situada, obviamente, em Xangai, a maior cidade da China. Obra do diretor Li Haoling, a história possuí a melhor enredo da antologia. Bem articulado, o curta apresenta Li Mo, Xiao Yu e Pan, três amigos de infância que se separaram após ingressar no ensino médio. Mas, tudo muda quando Li Mo, já adulto, encontra uma fita cassete com gravação de Xiao Yu, o grande amor de sua vida.

Esse episódio alcança o que seu roteiro propõe. É uma ótima construção de romance, mesmo com os clichês do gênero. Além disso, assemelha-se muito com as obras de Makoto Shinkai. Compartilha das mesmas reviravoltas empolgantes de Your Name Cinco Centímetros por Segundo. Assim como nos filmes de Makoto, aqui, as personagens não precisam verbalizar o que sentem. A história criada por Haoling é também a que melhor retrata os fatos culturais, sociais e econômicos da China. Os desenvolvimentos urbano e tecnológico de Xangai, mundialmente conhecidos, não passam despercebidos nessa trama. Em certa medida são até criticados.

Dentro dos padrões, as cenas desse romance são belas, de traços singulares. Apesar disso, a qualidade das imagens está um pouco atrás das grandes animações japonesas. Amor em Xangai tenta, mas não alcança com total maestria, o estilo seinen, que é aquele mais adulto com traços mais próximos do real. O que não diminui o valor do curta.

 

Considerações

Shiki Oriori: Sabores da Juventude não atinge com totalidade o se propõe, entretanto mostra-se bastante eficiente em seu plano de fundo de anime turismo. Ao mesmo tempo que promove as cidades chinesas, o longa expõe e problematiza, mesmo que de maneira sútil, os contextos do processo de industrialização chinês. Apesar de fraco, consegue retratar a essência da juventude e, dependendo do espectador, pode ser uma boa opção de filme. Para os entusiastas de cultura oriental, com certeza vale a pena assistir, sem muitos compromissos.

Sem sucesso popular, Shiki Oriori conseguiu se manter no meio termo entre as produções disponíveis no catálogo da Netflix. Além disso, é um aceno da empresa e do estudo japonês para o mercado cinematográfico chinês, o segundo maior do mundo.


yuri soares

Jornalista. gosta mais de café e vinho do que gente. não tem nada preferido, mas aprecia The Beatles e cultura japonesa de maneira especial.

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