Um exercício de iconofilia

Um Exercício De Iconofilia
[tempo de leitura: 4 minutos]

É praticamente impossível falar sobre cultura pop, hoje, sem sequer mencionar um dos maiores fenômenos culturais propagados pela indústria do entretenimento desde o final dos anos 90. Pokémon é uma franquia que começou como uma série de jogos de RPG desenvolvidos por Satoshi Tajiri para o Game Boy, em 1996. A partir daí, a marca se expandiu de maneira colossal em diversas mídias e, atualmente, ocupa a humilde posição de “franquia de mídia mais rentável da história” com uma renda estimada em cerca de 90 bilhões de dólares.

Constantemente reintroduzida para novas gerações, os jogos principais da série sempre mantiveram os elementos que a tornaram popular junto ao slogan Temos que pegar todos eles. No entanto, a primeira interação da franquia com o cinema aconteceu por meio da adaptação de um jogo spin-off não muito popular para o público geral.

Em um mundo em que seres humanos e pokémon coexistem desde os primórdios, Tim Goodman (Justice Smith) retorna a Rhyme City, sua cidade natal, após receber a notícia de que seu pai havia desaparecido em um acidente. Ao encontrar um Pikachu com ar de detetive (Ryan Reynolds) que era o antigo parceiro de seu pai, os dois se juntam para tentar desvendar o mistério.

O desafio de comprimir essa franquia quase-que-imperial em uma adaptação para o cinema ficou nas mãos do diretor Rob Letterman, que também assina o roteiro junto com Dan Hernandez, Beji Samit e Derek Connolly. Pokémon: Detetive Pikachu é, em linhas gerais, um filme que incorpora características de ficção científica utópica, neo-noir e buddy movie para contar uma história rica em detalhes visuais, mas narrativamente problemática.

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A história apresenta pontos importantes e que funcionam, como a dinâmica simples, porém efetiva, entre Tim e o Pikachu. No entanto, o filme parece perder o interesse em desenvolver os personagens humanos com distinção e personalidade para seguir introduzindo pokémons numa espécie de product placement auto referencial. O que resulta em uma história que apesar de estar em constante movimento, não nos dá razões o suficiente para importarmos com os personagens.

O que não implica em dizer que os atores deixam a desejar. Pelo contrário. Grande parte da personalidade de Tim Goodman, por exemplo, é oriunda da performance expressiva e cômica de Justice Smith. Assim como Kathryn Newton, que confere o cinismo necessário à aspirante a repórter investigativa Lucy Stevens, que também tem interesse na trama envolvendo o desaparecimento do pai de Tim.

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Algum destaque, portanto, ao próprio Detetive Pikachu, dublado por Reynolds, que é carismático e excêntrico na medida certa, e consegue se aproveitar bem da capacidade de se comunicar com Tim para estabelecer o vínculo central do filme.

Ainda assim, o que mais chamou a minha atenção é a eficiência no esforço dos departamentos visuais em trazer tangibilidade e fidelidade não só ao design dos pokémons, mas também à contextualização e construção de mundo em Pokémon: Detetive Pikachu. Ou seja, faz justiça ao material base, mas também permite que a relação milenar entre pokémons e humanos, ponto central da narrativa, seja algo perfeitamente natural dentro daquele universo.

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Apesar de todos os méritos visuais, a narrativa progride sem causar os devidos impactos. Cada momento em que desvendamos um ponto importante da trama acaba se tornando apenas uma desculpa para encaixar novas cenas envolvendo pokémons que ainda não haviam aparecido e que não contribuem tanto para às centralidades da história.

De todo modo, há uma tentativa perceptível dos roteiristas em trabalhar algumas problemáticas entre essa coexistência tão perfeita que o filme estabelece. Questões sociais, como não ter um companheiro Pokémon, refletem na forma como os próprios humanos enxergam um ao outro. Tim, por não ter nenhum companheiro e fracassar em suas tentativas de capturar um pokémon, é considerado um solitário no contexto dessa sociedade.

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Rhyme City, localidade principal da trama, se destaca como uma cidade futurista e utópica pela simples característica que a distingue de todas as outras. Ali é o único lugar do planeta em que pokémons não são usados em batalhas e, por isso, convivem em pé de igualdade e harmonia com os humanos.

Adaptações de jogos de videogames para o cinema sempre trarão questionamentos a respeito da transcrição de linguagens de uma mídia para a outra. Até que ponto é válido sacrificar uma história bem contada para tentar explicar mecânicas tradicionais ou particularidades de um determinado gênero de jogo? Há uma maneira melhor de transcrever esses aspectos para a linguagem cinematográfica? Essas são questões que cineastas e produtores certamente terão que responder bem para justificar e viabilizar esse tipo de adaptação.

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No entanto, Pokémon: Detetive Pikachu é um filme que respeita as tradições da franquia para contar uma história simples, mas divertida e que ressoa bem no imaginário de todos os fãs e simpatizantes da franquia. Não que algumas respostas para as perguntas que fiz sejam encontradas aqui, mas é admirável notar que Letterman e sua equipe souberam respeitar as limitações inerentes deste tipo de adaptação e buscaram soluções visuais criativas para trazer um universo tão icônico e amado para o cinema.

rafael bonanno

com 25, é um Jornalista em formação, com o Cinema como grande paixão. seus interesses também se estendem por produção de conteúdo relevante, storytelling, experiências interativas, narrativas transmídia, Fotografia e produção audiovisual.

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