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O Tempo Da Desigualdade Acabou?

O tempo da desigualdade acabou?

A temporada de premiações do cinema no início de 2018 foi marcada por protestos e manifestações políticas. Um dos destaques foi o Time’s Up, movimento criado por mulheres e para apoiar mulheres vítimas de abuso sexual na indústria e garantir igualdade de condições de trabalho entre os gêneros. Mais do que fazer o importantíssimo trabalho de criar um espaço seguro onde mulheres possam denunciar assédios sofridos e se prevenir de ataques futuros, a iniciativa também colocou sob os holofotes o principal aspecto que permite que esse problema continue acontecendo: a dominância que os homens exercem na indústria.

Em uma visão extremamente superficial, pode até parecer que a reclamação de desigualdade não se justifica em Hollywood, uma vez que vemos várias atrizes bem sucedidas por lá. Porém, uma análise um pouco mais atenta é suficiente para percebermos que a realidade da indústria cinematográfica não é nem um pouco diferente da realidade do resto das mulheres no mundo, que dificilmente ocupam posição de poder e, quando ocupam, recebem bem menos do que homens na mesma posição.

Durante o Gobo de Ouro 2018, Oprah Winfrey fez um discurso certeiro sobre a desigualdade de gênero e também sobre ser uma mulheres negra em um mundo machista e racista, levando, até mesmo, suspeitas de uma possível candidatura à Presidência, já desmentida pela própria

Em 2013, a New York Film Academy publicou um infográfico apresentando uma pesquisa feita por eles sobre a representação feminina na indústria do entretenimento entre os anos de 2007 a 2012. Os resultados, que trazem dados tanto das personagens femininas nas telas quanto das mulheres que trabalham por trás delas, escancaram a discrepância entre os gêneros. Por exemplo, no ano em questão, Angelina Jolie foi a atriz mais bem paga do cinema, acumulando cerca de 33 milhões de dólares. Pode parecer muito dinheiro, até compararmos com os outros nove atores que ganharam mais que ela, todos homens. Robert Downey Jr., o líder da lista, faturou 75 milhões de dólares no mesmo ano, 45 milhões a mais que Jolie. O que não seria um problema se fosse um fato isolado, mas em um contexto em que isso se repete sempre, é importante que se conheça as causas disso.

Com o intuito de continuar promovendo essa discussão, potencializada pelos eventos desse ano, a NYFA divulgou recentemente uma atualização dessa pesquisa com dados recolhidos no período de 2007 a 2016, e não surpreendeu em mostrar pouquíssimas diferenças. Além disso, a pesquisa também aponta algumas das mulheres que tem se destacado na indústria, como as diretoras Ava DuVernay e Greta Gerwig e as atrizes Reese Witherspoon e Oprah Winfrey. A pesquisa original publicada em 2018 se encontra disponível aqui. Os dados de 2013 para efeitos de comparação também estão disponíveis aqui.

 

Qual a importância disso?

A desigualdade e o machismo são, de uma forma ou de outra, realidade em todas as esferas de todas as sociedades. Enquanto algumas mulheres ainda lutam pelo direito de serem tratadas como seres humanos em muitos países do mundo, outras lutam pelo direito de serem bem representadas nos filmes. E por que isso é importante?

O “Time’s Up” reune nomes de peso como o de Meryl Streep, Salma Hayek e a já citada Oprah Winfrey

A indústria do entretenimento exerce enorme influência na sociedade. A vida imita a arte e a arte imita a vida. Ao mesmo tempo em que os produtos culturais retratam a sociedade como ela é, eles também tem o poder de incitar mudanças. Quando mulheres são retratadas apenas como objetos de desejo sexual (uma realidade que pode ser notada no infográfico pela elevada porcentagem de mulheres que aparecem com roupas reveladoras ou parcialmente nuas nos filmes), abrimos um precedente para que os homens pensem que as mulheres da vida real possuem apenas esse papel também. Quando garotas são retratadas sempre como donzelas indefesas, as meninas que assistem a isso são levadas a pensar que vão sempre precisar de alguém para defendê-las também. Quando o principal objetivo das mulheres na tela é chamar atenção do protagonista masculino, quando seu papel é sempre secundário e ela passa a maior parte do tempo calada, a voz das mulheres reais tem seu volume reduzido também.

Com “Selma – Uma Luta Pela Igualdade”, Ava DuVernay foi a primeira mulher negra a concorrer no Globo de Ouro por “Melhor Direção”. Com “Uma Dobra no Tempo”, ela é a primeira mulher negra a dirigir um filme com orçamento superior à 100 milhões de dólares

Se levarmos em consideração que em um mundo midiatizado e com facilidades de acesso a informação a todo momento, como na contemporaneidade graças a internet e aos diversos serviços de streaming e transmissão on demand, é impossível negar que essas mensagens sutilmente passadas nos influenciam de alguma forma. Em contrapartida, uma representação correta e responsável, pode inspirar mudança. Mulheres inspiradoras inspiram mulheres.

Um exemplo recente e importante se deu em 2012, com o lançamento dos filmes Jogos Vorazes e Valente. Tanto o live action quanto a animação da Disney apresentam protagonistas femininas fortes que praticam arco e flecha. Um estudo publicado pelo Geena Davis Institute on Gender in Media em 2016 mostrou que houve um significativo aumento de garotas nas competições de arco e flecha nos Estados Unidos, sendo que 7 entre as 10 garotas entrevistadas, atribuíram a vontade de praticar o esporte a uma das personagens.

E é ai que entra a importância das mulheres também por trás das telas. Quando os homens dominam completamente as posições responsáveis pelas narrativas, vemos o mundo ser representado e imaginado apenas pela visão deles. E quando um grupo detém o ponto de vista, por mais bem intencionado que alguns desse grupo possam ser, eles serão sempre os heróis.

Um dado que chama atenção na pesquisa da NYFA é que a única categoria que homens e mulheres estão em igualdade é na compra de ingressos. Então, se elas são metade do público consumidor, são responsáveis pela metade dos lucros, por que o espaço delas ainda é tão pequeno?


stephanie torres

22 anos e formada em Jornalismo. assiste mais Séries do que deveria, lê menos Livros do que gostaria, finge que a vida é um Filme e ouve Música como trilha sonora (especialmente Taylor Swift)

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