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O Silêncio Como Condutor Do Medo

O silêncio como condutor do medo

Se em 2017 vimos à entrada de Jordan Peele no gênero do terror com o trabalho fenomenal em Corra!, 2018 parece nos reservar mais uma surpresa de profissionais do âmbito humorístico que deixam a área em que são reconhecidos para demonstrar seu talento como cineasta. Diferindo de Peele, que estreava na direção de um longa-metragem, John Krasinski (o Jim da versão americana de The Office) já havia exercido a função em Brief Interviews with Hideous Men (2009) e Familiar Hollar (2016), mas sem demonstrar tamanhas virtudes como diretor. Agora, com Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, no original) ele surpreende ao entregar um dos filmes mais aterrorizantes dos últimos anos, demonstrando consciência de como trabalhar com gêneros dentro do cinema para criar uma obra memorável que se assume como uma experiência sonora tensa e arrebatadora.

Na trama, acompanhamos uma família tentando sobreviver em um mundo pós-apocalíptico em que os humanos estão rodeados de monstros que atacam a partir da emissão de sons. É sim uma premissa simples e até um pouco vazia, mas que o roteiro de Scott Beck e Bryan Woods, que tem contribuição de Krasinski, é perspicaz ao nos apresentar a família Abbot no “dia 89”; ou seja, passamos a acompanhar a família já a 89 dias após o acontecimento que os colocou naquela nova forma de viver. Ao não se valer de explicações didáticas a respeito do que aconteceu com a sociedade, de como surgiram os monstros que assolam as florestas ou de como os humanos (e a família) passaram a compreender o que precisavam fazer para sobreviver, o roteiro acaba sendo ágil e muito bem decupado, mostrando a compreensão dos envolvidos em sua criação de que o cinema é a arte “do que se deve mostrar” e não “do que se deve falar”. Desta forma, nos deparamos diversas vezes ao longo do filme com páginas de jornais ao vento, placas e cartazes, escritos em paredes e anotações em quadros que apontam para elementos importantes da narrativa, mas que não são explicações diretas de nenhum conceito ou informação do mundo criado.

A escolha por abrir mão dos diálogos para focar no principal elemento do cinema, a imagem, permite que Krasinski tenha mais espaço para demonstrar suas virtudes na direção, tanto no conduzir da narrativa quanto na construção da tensão e do pavor que não se exaurem em momento algum. A narrativa é desenvolvida com maestria em um ritmo cadenciado que vai apresentando as soluções encontradas pela família para viver em um mundo em que tarefas cotidianas comuns podem te levar a uma morte rápida e sangrenta, permitindo que o senso de perigo se estenda incrivelmente depois do susto. O uso de areia para traçar caminhos seguros para casa, evitando o barulho de plantas e galhos ou o forno construído nas estruturadas da casa são soluções visuais perfeitas encontradas pelo diretor para evidenciar as artimanhas e o domínio que a família tem sob as novas regras de sobrevivência.

A relação de Emily Blunt e John Krasinski vai além das telas, já que os atores são casados na vida real. O filme, inclusive, é a primeira colaboração entre os dois

Ainda, o diretor demonstrar engenhosidade e consciência visual ao explorar do vazio como potencializador do medo e desespero do espectador. O uso de planos fechados e de enquadramentos que colocam os personagens nos cantos do plano criam espaços vazios na tela responsáveis por dar a sensação angustiante de que algo vai preencher aquele buraco, em um jogo de antecipação do que pode sair do espaço que rodeia os personagens. Vale ressaltar, também, a escolha por não mostrar os monstros em sua totalidade até o terceiro ato, deixando o imaginário do espectador trabalhando com a insegurança de não identificar de onde vem o som emitido pelas criaturas, que quando são reveladas se sustentam graças ao bom CGI da produção, que merece ser valorizado ainda mais quando pensamos no baixo orçamento do filme.

O design de som é um show a parte, criando um efeito sonoro seco para diferenciar como a filha surda percebe as situações a sua volta, um ruído espectral interessante para os monstros, uma sensibilidade impressionante em como criar sons (ou a falta de sons) dentre de ambientes variados e diferenciando-os, além de, claro, efeitos estrondosos que ficam ainda mais potentes quando rompem o silêncio que permeia a produção. Se muitos filmes de terror utilizam de ruídos altos para assustar, Um Lugar Silencioso se diferencia dos outros por explorar do silêncio como criador da tensão e do anseio do que pode acontecer caso aquela monotonia seja quebrada, utilizando do susto como uma mera ferramenta para incomodar o espectador. A inventividade da obra de Krasinski está, justamente, na compreensão de que em sua trama o verdadeiro perigo vem após o ruído estrondoso, alongando a apreensão do espectador a níveis desconfortáveis. Esse incomodo é, inclusive, a principal sensação do terceiro ato que conta com uma enorme sequência de sobrevivência arrebatadora.

John Krasinski dirige e estrela o filme, trazendo-o como um pai de família ultra-protetor, disposto a fazer qualquer coisa para manter seus filhos em segurança. Na imagem, junto à ele, está o ator Noah Jupe, um de seus filhos na película

Apesar da falta de diálogos, o ótimo elenco tem material para trabalhar. O próprio Krasinski, que vive o pai da família, tem uma performance sólida ao dar vida a um homem que carrega a dor e a culpa de não ter conseguido proteger sua família em um momento importante da trama. Ao mesmo tempo, ele mostra não só inteligente, apto a sobreviver e amedrontado pelas criaturas ao escolher evita-las ao invés de combate-las, mas também preocupado de que caso morra, sua família também ficará em apuros, demonstrando todo o seu pesar na tentativa de proteger dar um porto seguro as pessoas que ama. Noah Jupe vive o filho mais novo da família, demonstrando o pânico e o pavor crescente de um jovem assustado por passar a ser exigido de mais responsabilidades no que diz respeito a vida familiar.

A jovem surda Millicent Simmonds faz uma filha carregada de drama, emoções, dúvidas e traumas importantes para a relação familiar construída, suprimindo sentimentos que quando explodem – seja por meio da linguagem dos sinais, ou por espasmos silenciosos de raiva e tristeza – são convincentes e emocionantes. Mas, quem se destaca no elenco é Emily Blunt ao entregar uma mais uma atuação intensa, trabalhando toda sua capacidade de fluir naturalmente e de forma rápida entre o contido e o expressivo para demonstrar o medo e a tristeza existentes naquela família.

Emily Blunt mostra controle absoluto sob sua personagem, assim como a estreante das grandes telas, Millicent Simmonds, que assim como na ficção, é surda na vida real

Partindo de uma premissa simples muito bem trabalhada por um roteiro perspicaz, por uma direção magistral consciente e por atuações consoantes, Um Lugar Silencioso se assume como um filme de terror que trabalha um extrapola os limites da tela para se assumir como uma experiência sonora agonizante e arrebatadora, tão forte que nos deixa incomodados com desconforto causado pela incessável vontade de gritar de medo ao longo do filme.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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