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O Legado Do Morto-vivo

O legado do morto-vivo

Se o mercado de entretenimento e cultura pop atual está recheado de produções que trabalham com a representação de zumbis, sejam eles mortos-vivos, seres geneticamente modificados ou seres humanos transformados por vírus, uma enorme parte está ligada ao trabalho do cineasta George A. Romero. O videoclipe de Thriller, de Michael Jackson, os filmes e os jogos de Resident Evil, filmes como Todo Mundo Quase Morto, a série televisiva The Walking Dead e porque não Game of Thrones, trabalharam com as formulas e características do subgênero que foi garimpado por Romero.

O cineasta não e o responsável por criar este conceito, mas foi quem definiu os elementos básicos e necessários para toda a mitologia de uma história de zumbi. A ideia dos seres reanimados comedores de carne humana que explorou primeiramente em seu lendário A Noite dos Mortos-Vivos (1968), já havia sido trabalhada em filmes antecessores como O Morto Ambulante (1936) e Epidemia dos Zumbis (1966), dentre outros.

A genialidade de Romero residiu no fato de que o autor reinventou a mitologia das criaturas, que anteriormente eram seres autômatos revividos graças a rituais de vodu haitiano. Com seu trabalho, o cineasta encontrou uma maneira de modernizar a essência da criação dos zumbis para transforma-los em seres alegóricos. Assim, o diretor produziu, ao longo de sua carreira, diversos filmes que exploravam dos mortos vivos como metáforas e alegorias críticas a valores sociais e culturais da sociedade, além de torna-los uma representação dos anseios e ansiedades do imaginário de uma época específica. Romero conseguiu aproximar o gênero de terror do cotidiano humano com simplicidade, sangue e crítica.

Em 1968 o diretor lançou seu primeiro, A Noite dos Mortos Vivos. O longa revolucionou não só o subgênero de zumbis como um todo, mas todo o cinema de horror, uma vez que o orçamento de produção custou aproximadamente U$ 114 mil, investidos do próprio bolso do diretor, que filmou em preto e branco devido ao baixo orçamento e utilizou de tripas animais de verdade para assegurar o realismo tão chocante nas cenas do longa.

Cena de A Noite dos Mortos-Vivos (1968)

Além disso, o filme trazia uma revitalização para o gênero com mais violência, nudez, gore e canibalismo do que as outras produções da época, além de apresentar um protagonista negro e trabalhar as temáticas sociais alegóricas. A obra é considerada por Jamie Russel, autor do livro Zumbi – O Livro dos Mortos, como “o filme que fez nascer o terror norte-americano da era moderna”. A Noite dos Mortos-Vivos foi um grande sucesso financeiro, faturando aproximadamente 12 milhões de dólares só nos EUA.

Mesmo com a prosperidade criativa e econômica que se desenhava para Romero no final da década de 60, os anos 70 iniciaram com um banho de água fria no diretor. Seus filmes seguintes não foram bem recebidos pelo público que, depois de A Noite dos Mortos-Vivos, esperava por mais um longa metragem com zumbis. Assim, os filmes There’s Always Vanilla (1972), A Estação da Bruxa (1972), O Exército do Extermínio (1973) e Martin (1977) acabaram caindo no esquecimento. Contudo, vale dizer que estas projeções trabalham críticas interessantes ao descontrole militar estado-unidense, aos fantasmas da guerra do Vietnã, ao receio de uma infecção biológica pelo avanço armamentista nuclear e a estrutura familiar social da época.

Com os flops de bilheteria destas produções, Romero voltou seu senso criativo para dar continuidade a sua narrativa com zumbis. Com isso, chegou aos cinemas em 1978 o filme mais celebrado e icônico da carreira do autor: Despertar dos Mortos. Neste retorno a temática do morto vivo, o diretor encontrou na crítica ao capitalismo e ao consumismo exacerbado da sociedade estado-unidense não só um alvo crítico, mas também uma maneira de situar sua narrativa.

Trocando as ambientações pastoris idílicas de A Noite dos Mortos-Vivos por grandes centros urbanos, Romero explora de um shopping center como palco de todas as críticas sociais ao capitalismo e ao consumismo que estão encapadas em um filme de horror muito mais chocante, brutal e gore do que seu antecessor. O aumento expressivo no orçamento, a presença de cores na imagem e a excelente maquiagem de Tom Savini permitiram que o cineasta torna-se as cenas muito mais catologicas.

Cena de “Despertar dos Mortos” (1978)

O desfecho dessa primeira trilogia viria em 1985 com o filme Dia dos Mortos, apresentando zumbis mais domesticados e humanizados, em um filme repleto de um niilismo existente no mundo humano e que apresentava um clima mais sórdido e pessimista. Dessa vez, a principal crítica se reside na violência armamentista ostensiva e desnecessária, em uma clara metáfora a conjuntura da Guerra Fria.

Infelizmente, por possuir um orçamento alto e ter feito pouco dinheiro na bilheteria, Romero passou por alguns anos de produção cinematográfica que não trabalharam com zumbis. Assim, dirigiu filmes Instinto Fatal (1988), Dois Olhos Satânicos (1990) em parceria com Dario Argento, A Metade Negra (1993) e A Máscara do Terror (2000).

Foi só em 2005 que Romero retornaria ao gênero, iniciando uma nova trilogia, com Terra dos Mortos, que foi seguida por Diário dos Mortos (2007) e A Ilha dos Mortos (2009). O cineasta até esboçou um debate sobre luta de classe, corporativismo e toda política externa americana da Era Bush em seu combate ao terrorismo, mas os novos filmes do diretor não tinham a mesma urgência e relevância social que a trilogia original, nem apresentaram nenhuma renovação ao gênero.

Entretanto, Romero viveu o suficiente para ver seu legado influenciar uma geração de ótimos escritores, quadrinistas, cineastas e produtores em geral, como o criador da série de quadrinhos The Walking Dead e os cineastas Edgar Wright e Zack Snyder (o primeiro dirigiu seu filme Todo Mundo Quase Morto e o segundo dirigiu Madrugada dos Mortos), remake de Despertar dos Mortos, além de inspirar a criação da franquia de videogame, que foi adaptada aos cinemas, Resident Evil.

Agora, o mestre dos zumbis se foi, mas, assim como suas criaturas, não ficará morto. A sua memória permanece em qualquer um que tenha olhos abertos, reconhecendo o legado rico e imprescindível para o cinema e a cultura pop que é deixado por George Romero.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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