Seria melhor se Hellboy estivesse no Inferno

Seria Melhor Se Hellboy Estivesse No Inferno
[tempo de leitura: 4 minutos]

Em meio a um cenário em que Hollywood tem explorado de reboots diversos das mais variadas franquias e séries de filmes, a retomada de uma produção de Hellboy é algo curioso. Os dois primeiros filmes, dirigidos por Guillermo del Toro, podem não ter garantido retornos econômicos exorbitantes para o estúdio, mas a qualidade enquanto produto e, principalmente, o olhar autoral do diretor mexicano para a criação daquele universo fantástico-sobrenatural garantem personalidade aos dois projetos.

Passados mais de 10 anos da última aparição do personagem nas telonas, Hellboy volta em uma nova versão que, de forma trágica, acaba por ser um grande exemplo de reboot desnecessário e que perde a oportunidade de explorar de um bom potencial. Inspirado nos quadrinhos do personagem criado por Mike Mignola, a nova película não aproveita do bom momento das adaptações de HQs nos cinemas e desperdiça a possibilidade de enxergar em sucessos recentes alguma inspiração para trazer frescor e renovação para o universo de Hellboy.

O principal problema do filme reside no roteiro inchado escrito por Andrew Cosby, que na tentativa de apresentar conceitos, personagens e a interessante mitologia criada nos quadrinhos, acaba se perdendo na quantidade de material que precisa lidar em duas horas de projeção. No fim das contas, é um roteiro que desperdiça muitas boas ideias e uma possível construção de universo sobrenatural e místico rico, mas que na afobação cria uma narrativa esquizofrenia.

O enredo traz Hellboy (David Harbour) como a figura central capaz de impedir a ressurreição de Nimue (Milla Jovovich), a milenar e poderosa bruxa Rainha do Sangue, que depois de séculos aprisionada retorna ao mundo com a missão de tirar as criaturas e monstros das sombras. O discurso da vilã pautado na libertação dos seres místicos para viverem no mundo comum é extremamente batido, sendo ainda mais desfavorecido pela má construção de uma tensão entre os humanos e as criaturas. É verdade que o protagonista é um detetive/caçador sobrenatural que trabalha para uma instituição secreta cujo objetivo é caçar monstros que quebram com o equilíbrio da coexistência, mas em momento algum o roteiro consegue dar tons de que essa existência de dois mundos é realmente problemática.

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Por isso, quando o texto introduz duas revelações relacionadas aos laços pessoais e paternais de Hellboy, uma no meio da projeção e a segunda já no começo do clímax, a possibilidade de um arco dramático ou de alguma mudança do protagonista não se edificam de forma alguma, o que impacta profundamente na empatia do público com o personagem. O tom desconjuntado, incapaz de equilibrar um humor jocoso com a violência caricata e grotesca, tornam todos os personagens em constantes marionetes canastronas e cheias de si, sem personalidade e carisma. A falta de química entre todos atores completa o desastre que são as dinâmicas de personagens, principalmente a relação paternal entre o personagem de Ian McShane e o protagonista, além da irritante dinâmica do trio formado pelo monstro vermelho, Alice (Sasha Lane) e o agente Bem Daimio (Daniel Dae Kim).

David Harbour evidentemente se esforça no papel principal, mas a falta de tom definido exaure qualquer possibilidade de carisma, atuação e construção de um personagem com personalidade, transformando a nova versão do Hellboy em um monstro rabugento, chato e com frases de efeitos vazias. Mesmo que com tantos problemas, o maior desastre fica a cargo da antagonista do longa vivida por Milla Jovovich. A atriz não ganha espaço para explorar dos seus anos participando de sequências de ação mirabolantes e envolventes em Resident Evil, sendo limitada a uma vilã sem peso e imponência, desperdiçando a possibilidade de cenas de luta que valessem o ingresso de um filme pipoca como se espera de Hellboy. Apesar de não trazer tanta expectativa quanto à amplitude dramática, a palidez e falta de expressão na atuação de Jovovich deixam a personagem ainda mais vazia e dispensável, funcionando apenas como o motivo para que a narrativa siga a diante.

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O roteiro esquizofrênico e a falta de uma narrativa decidida a contar uma história coesa e interessante trazem um problema de ritmo gritante. São tantos acontecimentos, personagens apresentados, locais visitados e revelações mal construídas e porcamente desenvolvidas, que o espectador sai visivelmente cansado da sala de cinema. Até mesmo a premissa de que o destino do próprio Hellboy é que ele é o catalisador de um apocalipse e o líder da supremacia dos seres das trevas perante os humanos é mal trabalhada, algo que os dois filmes de del Toro souberam fazer com clareza e profundidade. É uma boa história desperdiçada e um arco dramático interessante, mas que se tornam meros melodramas de um monstro com problemas paternais e de autoaceitação.

A falta de assinatura, personalidade e controle criativo recaem nas mãos do diretor Neil Marshall, que não traz o controle de ambientação e construção de atmosfera de terror que fez muito bem eu seu filme Abismo do Medo (2005), ao passo que também não tem sucesso nas sequências de ação pouco empolgantes como fez quando dirigiu dois bons episódios de Game of Thrones – Blackwater (T02, Ep. 09) e The Watchers on The Wall (T04, Ep. 09).

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Nesta bagunça completa, a nova interpretação de Hellboy não empolga e faz um desserviço ao conceito de reboot. O que fica é a sensação de que essa nova investida na franquia não era desejada e muito menos necessária. Um retorno desagradável e que, pelo o que tudo indica, assegura um lugar nos confins do submundo do cinema.

joão dicker

com 23 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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