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#FreeBritney

[tempo de leitura: 8 minutos]

“Framing Britney Spears” é um interessante olhar na conservadoria que rege a vida de Britney Spears e fomenta um movimento global de fãs.


OO que você está disposto a dar em prol da fama? Talvez vender sua mãe ou fazer um pacto com o Diabo? Muitos de nós já brincamos com essa pergunta, alimentando o sonho de um dia poder ser reconhecido mundialmente, ganhar muito dinheiro e viver confortavelmente. Porém, o que a gente não leva muito em consideração é que ser famoso custa (muito) caro. E talvez, no mundo contemporâneo, não haja alguém que entenda melhor disso do que Britney Spears.

 

Framing Britney Spears

Ouvir os fãs da Princesa do Pop desbravarem um sonoro “Libertem a Britney!” pode parecer um absurdo para os ignorantes. “Há tanta gente, literalmente, aprisionada injustamente“, você talvez retruque. “Sem contar as milhares de pessoas passando fome, ou sem um teto. Porque a vida de uma milionária , que nem mesmo sabe quem eu sou, deveria importar?“.

Framing Britney Spears, episódio da série documental The New York Times Presents, usa desta premissa para narrar a trágica trajetória jurídica da cantora, que revolucionou a música pop no início dos anos 2000 e bateu de frente com as boybands, o maior mercado musical popular da época.

Para os fãs, a produção de pouco mais de uma hora é uma vitória para o sonoro #FreeBritney, movimento mundial organizado em apoio à Britney e contra a manutenção da Conservadoria na qual a cantora se vê atrelada. Para os desavisados, é um interessante e revelador mergulho em um sombrio momento da indústria de entretenimento, além de uma visão única sobre um triste capítulo – de mais de uma década – na vida de Spears.

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O Que Significa A Conservadoria?
Mais de dez anos desde de seu público colapso mental, Britney Spears ainda segue num regime de absoluta falta de controle sobre a sua vida artística, financeira e pessoal. Mesmo que a fortuna de Spears seja extensa, a Princesa do Pop não pode gastar seu próprio dinheiro sem o aval de seu pai. Não só isso, é ele quem toma as decisões sobre a guarda de seus netos, a quantidade de shows que a cantora faz, os lugares onde ela performa, decisões sobre a casa da artista, e até mesmo com quem Britney pode ou não entrar em contato.

 

 

mundo cruel

O que marca em Framing Britney Spears, além do objeto óbvio, é como o documentário do The New York Times é sucinto em estabelecer a narrativa de que Britney não é uma espécie de inválida, como contesta seu pai e sua família. No mesmo passo, a famosa gigante jornalística mostra responsabilidade ao atribuir um certo nível de mea culpa. A produção deixa bem claro que a Princesa do Pop não chegou ao esgotamento psicológico sozinha, mas houve um gigantesco e generoso empurrão da mídia para isso acontecer.

Neste lado, inclusive, marcam dois momentos. O primeiro é com Brittain Stone, ex-Diretor Fotográfico (2001-2011) do tabloide US Weekly. O segundo é com Daniel Ramos, ex-Vídeografo de Celebridades (Paparazzi, na línguagem popular). Ambos, peças centrais na constante perseguição midiática de Britney Spears, são incapazes de enxergar seus próprios papéis diante do episódio que condenou a vida da cantora.

Embora os dois homens relembrem o frenesi causado pelo alto valor de uma foto da jovem cantora, Ramos até mesmo chegar a soltar a pérola de que em nenhum momento a artista verbalizou estar de saco cheio dos paparazzis ou querer um pouco de paz. A afirmativa, é claro, é irreal. Framing Britney Spears mostra diversos momentos em que a Princesa do Pop implora para ser deixa em paz, chorando ou apavorada. O fotógrafo ainda mostra a conexão, mas não quer ligar os pontos. “Ela era muito amigável, um doce de garota. (…) Quando ela teve seu primeiro filho, tudo explodiu“.

Stone, por sua vez, tenta se justificar afirmando que tabloides como o seu eram algo positivo para a sociedade, porque humaniza as celebridades e oferece um entretenimento saudável para as pessoas, que se sentem iguais a seus ídolos e inspirados por eles. Vergonhoso.

 

o Pesadelo

Se na primeira metade Framing Britney Spears mostra a construção do sonho de um doce e inocente garota do interior, a outra metade navega no público capítulo de exaustão psicológica de Britney. Ramos volta como peça central, sendo o fotógrafo que filmou o episódio do guarda-chuva (foi o carro dele que Spears atacou).

Temos, então, Vivian Lee Thoreen, advogada que participou dos primeiros meses dos processos de conservadoria. Embora a personagem logo desapareça de cena (ela é misteriosamente chamada de volta para o time legal do processo, após uma década longe dele), ela é a responsável por explicar o público o absurdo da conservadoria.

Algumas pessoas apenas precisam de ajuda para algo simples, como escovar os dentes. (…) Ter um conservador de bens para alguém significa que esta pessoa é substancialmente incapaz de gerenciar suas finanças, ou eles estão sujeitos a sofrer influência ou fraude. É mais do que um “Eu não posso fazer meu imposto de renda”. É um “Eu posso entregar todo o meu dinheiro para alguém”.

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É o momento que a figura de personagem muito importante entra em cena – figura, já que a pessoa real se recusou a participar da produção, assim como outras importantes pessoas desse duelo judicial. Jamie Spears, pai de Britney, é o grande vilão. Odiado pelos fãs, Framing Britney Spears reune pessoas significativas suficiente (a ex-manager, a ex-agente) para sustentar a narrativa de que Jamie nunca foi uma figura presente na vida de Spears até aquele momento. Sua repentina aparição como o conservador de toda a vida financeira, pessoal e artística da cantora causa estranheza para os mais íntimos, assim como os jornalistas especialistas no caso. Ainda mais quando algo que começou “inocente” e temporário, toma uma forma elaborada de controle e passa a se instituir como permanente.

 

INVÁLIDA?

Não demora muito para que Framing Britney Spears se mostre como um objeto de suporte para o movimento #FreeBritney. Se o The New York Times quer, com isso, tirar um pouco do peso de fazer parte da indústria que ajudou Britney Spears chegar ao seu limite e Jamie Spears construir o seu caso, fica difícil de saber. Mas eles tentam, a todo custo, com fontes reais e personagens pivôs, estabelecer que a Princesa do Pop não é, nem nunca foi, uma inválida ou incapaz – opinião que sustenta todo o processo de conservadoria.

É aqui que entra Adam Streisand. O advogado, especialista em conservadorias, foi o primeiro a ser contacto por Britney, em busca de ajuda legal para dar fim ao seu processo. Streisand explica que, naquela época, através de conversas com a cantora, ele chegou a conclusão de que Spears estava sã o suficiente para tomar decisões por si própria, diferente do que todo o processo estabelecia. Porém, ao se apresentar diante do juíz, Adam foi retirado do caso, sob a alegação de que um laudo médico afirmar que a cantora é incapaz de contratar alguém, estabelecendo assim um advogado apontado pela corte. Streisand diz que, até hoje, não entende a demissão, e que nunca o deixaram ver o tal laudo em questão.

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Esta problemática da invalidez da cantora até mesmo levanta questionamentos dentro e fora do doc. Se a conservadora é feita para proteger pessoas julgadas incapazes, como que Britney pode ser considera “incapaz” sendo que ela continua trabalhando ativamente e continuamente, lançando álbuns, fazendo entrevistas, sendo jurada em reality show, ou se apresentando diariamente em sua residência de quatro anos em Las Vegas, um show de quase duas horas de duração?

Framing Britney Spears
O The New York Times é sagaz até mesmo na escolha do título do documentário. Framing tem um significado ambíguo. Pode ser o de enquadrar algo, como se enquadra uma cena para uma foto. Ou pode ser o enquadrar alguém como criminoso – mesmo ele sendo inocente. Assim, estamos falando ao mesmo tempo de enquadrar Britney Spears como objeto de análise do doc, ou enquadrá-la como a única culpada de tudo que aconteceu em sua vida.

 

Traçando Paralelos

Já fazem mais de dez anos desde que Britney Spears não conseguiu mais segurar o estresse que é o mundo do entretenimento, absurdamente invasivo e dominante na vida da maiorias das celebridades que ingressam nessa vida. Devastador para aqueles que, como a artista, começaram suas carreiras jovens.

Assistir ao Framing Britney Spears é impossível não traçar paralelos com inúmeras outras celebridades. Paris Hilton, por exemplo, veio recentemente a público com o seu documentário, This Is Paris, falar sobre os abusos físicos e psicológicos que sofreu aos 15 anos – e que levaram ela a criar a personagem vazia e superficial que conhecemos. A socialite até mesmo aparece brevemente na produção, demonstra seu apoio à artista.

Justin Bieber, em suas recentes músicas, como Monster e Lonely, narra a história de um jovem adulto arrependido pelas idiotice que fez quando mais jovem, pela imaturidade em navegar pelo gigante e sufocante mundo da música. Demi Lovato, que não só está para vir com um novo documentário, segue lançando íntimas canções que falam sobre sua recaída e vício em bebidas e entorpecentes (Sober), além de denunciar sua própria equipe e pessoas próximas em ignorar os sinais mais claros de suas recaídas (Anyone).

Miley Cyrus, Amanda Bynes, Lindsay Lohan, Macaulay Culkin, Drew Barrymore, Mary-Kate e Ashley Olsen, Jodie Sweetin, e Haley Joel Osment são apenas alguns de muitos nomes com histórias semelhantes.

 

#FreeBritney

Algo que chama atenção no #FreeBritney é a unilateralidade concentrada nos fãs, uma vez que a própria família da cantora se diz totalmente a favor da manutenção da conservadoria com a desculpa de que “Britney está feliz assim“. E aqui, há três pontos a serem levantado.

O primeiro é que, bem, Britney aparentemente não está feliz assim, já que a própria cantora foi atrás de remover seu pai como controlador da benfeitoria – e embora não tenha conseguido tirá-lo completamente, ela conseguiu adicionar um co-controlador de sua escolha. O segundo é que a manutenção significa que os familiares de Spears seguem recebendo uma mesada a custas da milionária herança da Princesinha. E quem não quer fazer nada e receber uma pensão gorda, não é mesmo? O terceiro, porém, é possivelmente o mais importante a ser levantado.

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Falar que Britney Spears está “feliz assim” é ignorar o fato de que Britney Spears não teve a oportunidade, como uma adulta, a se provar responsável pela sua própria vida. Dez anos dentro de uma conservadoria, em que te tratam como inválido, e um longo e público episódio de exaustão psicológica, e todo o julgamento que isso traz, com certeza trazem muito peso para a vida de alguém – principalmente se esse alguém sempre carrega consigo uma indesejada equipe de dezenas de fotógrafos e mídia. E após tempo sendo tratada como uma criança indefesa no precipício de um outro “episódio”, é impossível não imaginar como isso mina a confiança de alguém e torna-a refém da própria falta d confiança. Tudo isso, junto, torna quase impossível a chance de provar o próprio amadurecimento necessário para rever controle pela própria vida, não é mesmo?

Britney Spears segue sendo tratada como alguém incapaz, mesmo diante de pedidos de socorro – os advogados do pai da cantora seguem alegando que a conservadoria “salvou a vida” da artista. Ao final, Framing Britney Spears mostra que Jamie Spears está agindo igual Brittain Stone ou Daniel Ramos, que apesar de verem o que está diante deles, se recusam a realmente processar, entender e escutar o que está bem em frente aos seus narizes e assumir suas parcelas de culpa em todo esse circo. Então, se não ficou claro suficiente:

#FREEBRITNEY

vics

Tem 25 anos, é formado em Jornalismo e tem uma pós em Comunicação e Marketing. É um dos criadores do projeto, colaborando com matérias sempre que tem uma boa pauta em mãos.

Em 2020, passou 48 dias assistindo Séries usando a desculpa de escrever pra revista e outros 11 dias assistindo Filmes, deitando pra indústria dos blockbusters. Não leu nenhum Livro, mas foram 48 dias reproduzindo Música e fingindo estar dublando pelo próprio legado. ✨

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