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Cultura, Representatividade E Realeza

Cultura, representatividade e realeza

  • Filmes

Com a sua estreia no universo cinematográfico da Marvel em Capitão América: Guerra Civil (2016), o Pantera Negra conquistou a atenção do público interessado nos filmes do gênero por apresentar um estilo de combate próprio, um background interessante com enorme potencial a ser explorado e por ser um personagem que, mesmo que com pouco tempo de tela, havia mostrado uma interessante profundidade para ser desenvolvida em outros longas. Com diversos nomes de peso entrando para a equipe de produção majoritariamente formada por negros, como o excelente diretor Ryan Coogler, uma enorme lista de bons atores e o envolvimento de Kendrick Lamar na produção da trilha sonora original do filme, Pantera Negra (2018) não só passou a ser um longa com uma importante marcação a respeito de diversidade e inclusão em Hollywood, como também carregava a expectativa de ser uma das melhores películas da Marvel até então. Com a chegada do filme, nos deparamos com uma produção que entrega tudo o que havia prometido com muita personalidade, identidade politizada e apuro estético marcante.

Neste reencontro com T’Challa (Chadwick Boseman), vemos o herói momentos antes de ser coroado Rei e líder da fictícia Wakanda, herdando oficialmente não só as responsabilidades políticas e os cometimentos místicos que permeiam a cultura da nação africana, mas também os erros e fantasmas do passado que foram cometidos por seu pai, T’Chaka (John Kani), enquanto era rei. Assim, na medida em que a figura de seu pai é desnudada com as revelações de seus erros, T’Challa passa por sua jornada de aprendizado e crescimento para se tornar o líder que Wakanda precisa em momentos tão conturbados.

Todo esse caminho que levará a sua ascensão como rei edificante perpassa, também, pela contraposição que o antagonista do longa, Erik Killmonger (Michael B. Jordan) faz com o protagonista. Ele não é somente o inimigo a ser derrotado para que o herói prove para o mundo e para si mesmo a sua força e capacidade, mas sim a subversão de tudo o que a família de T’Challa havia construído para o reino de Wakanda e suas leis.

A caracterização de ambos como balança equilibrada agrega um drama robusto e envolvente ao longa, assegurando o peso necessário para que a jornada pessoal do herói possa ser sentida e facilmente relacionada pelo espectador. É um trabalho de roteiro eficaz de Coogler e Joe Robert Cole, que encontram nas possibilidades de enfrentamos de ideologias e pensamentos de T’Challa e Killmonger o palanque perfeito para criar as tensões políticas e o contexto histórico, cultural e social de Wakanda, ao passo que vão gradativamente apresentando as nuances de cada personagem. Destas várias camadas, saem outras oportunidades para os ótimos personagens secundários brilharem, ora devido as inteligentes inserções do roteiro, ora pelas atuações impecáveis de todo o elenco de apoio.

Michael B. Jordan faz o melhor vilão da Marvel até então, superando o carismático Loki de Tom Hiddleston, ao entregar emoções genuinamente identificáveis e transparecer as (justificáveis) motivações de seu personagem com contundência e sem a corriqueira megalomania de vilões espalhafatosos. Chadwick Boseman carrega o protagonismo do longa com presença e imponência, mas entregando toda fragilidade do personagem quando necessário, tornando a história do Pantera mais intimista para o espectador. Se o protagonista é um herói (e porque não um rei) em construção, mostrando imperfeições, tormentos e inseguranças, os personagens que permeiam sua vida são a base e o apoio para que ele se supere e, principalmente, aprenda a governar.

Michael B. Jordan e Chadwick Boseman como Killmonger e T’Challa, respectivamente

Com isso, o incrível elenco ganha o devido espaço e tempo para brilhar. Danai Gurira dá vida a General Okoye, a chefe das Dora Milaje, com uma interpretação que transmite toda a força, lealdade e integridade moral de uma pessoa que apesar de seus princípios e valores, compreende a necessidade de proteger a história de sua terra natal. Lupita Nyong’o traz toda a ternura, leveza e compaixão para Nakia, que funciona muito mais do que apenas como envolvimento amoroso de T’Challa, mas sim como uma espiã astuta e destemida.

Angela Basset, apesar de receber menos atenção do roteiro, faz a rainha-mãe Ramonda com uma importância e presença na vida de seu filho, ao passo que sua filha caçula, Shuri (Letitia Whright) agrega uma dinâmica de personagem viva e realista para o relacionamento dos irmãos, além de funcionar como um alivio cômico certeiro e orgânico. Além de tantas mulheres negras espetaculares em seus respectivos papeis, Daniel Kaluuya, com uma atuação que trafega entre a intensidade e a contenção, e Winston Duke, com uma presença de tela forte e marcante, dão vida a personagens que ajudam a compor toda a criação de mundo rico que Wakanda vem a ser, ao mesmo tempo que seus personagens agregam a jornada de aprendizado pessoal e político de T’Challa.

O elenco de “Pantera Negra”. Na escada, da esquerda pra direita: Michael B. Jordan, Lupita Nyongo’o, Danai Gurira e Letitia Wright. Em pé, da esquerda pra direita: Forest Whitaker, Daniel Kaluuya, Chadwick Boseman e Angela Bassett.

Wakanda, inclusive, é uma personagem a parte do enredo. A construção da nação africana não é só uma importante parte da narrativa por ser o centro das discussões e dos embates ideológicos que o protagonista precisa enfrentar, mas também é criada com um esmero estético, uma riqueza de cores e um grafismo estilizado que combina as tradições africanas a uma verve de design moderno e futurista incríveis.

O design de produção e a direção de arte do longa fazem uma celebração da cultura africana em cada traço, textura e cor dos figurinos, da maquiagem e dos cenários, ao passo que a cinematografia capta as cores quentes vivas das áridas planícies do continente em uma contraposição a predominância de preto e tons de roxo escuro da cidade e, principalmente, das cenas noturnas do longa. É um trabalho que merece todo reconhecimento pela exuberância em que cria um país pulsante e cheio de costumes, valores e tradições, colocando Wakanda e o visual de Pantera Negra no mesmo patamar que as cores pops e vivas de Guardiões da Galáxia e Thor: Ragnarok como os filmes mais bonitos do MCU, mas com uma identidade mais marcante em relação aos outros dois.

Além da valorização da cultura africana presente na estética e visuais, o filme é complementado por uma trilha sonora estupenda, que produzida por Kendrick Lamar combina ritmos, melodias e batidas ligadas a diferentes manifestações da cultura negra ao longo do mundo, passando pelo R&B, soul, trap, hip-hop, junto à ritmos africanos. É um trabalho impecável do artista, que faz com que a sua identidade musical transforme a trilha do longa em um complemento para toda a construção dos dilemas pessoas e políticos de T’Challa, trazendo os temas comuns as suas composições originais como empoderamento, identidade e espiritualidade.

Dentro de toda estas particularidades que Pantera Negra entrega, Ryan Coogler traz um frescor para a tão falada “fórmula Marvel”, explorando da essência descontraída e alegre da Casa das Ideias de uma maneira diferente do que outros diretores haviam feito. Se Taika Waititi inseriu seu humor ácido e satírico em Ragnarok, Coogler injeta um ritmo narrativo dinâmico e forte ao filme, ao mesmo tempo que não perde a oportunidade para demarcar um discurso político, social e ideológico forte dentro dos questionamentos que os próprios personagens vivem. A essência dos longas da Marvel está presente, com um humor subjacente a narrativa mas que não predomina ou suaviza a carga dramática que o filme carrega, o que já ocorreu diversas vezes em outras películas do MCU.

Por outro lado, ao se render ao uso excessivo de CGI (computação gráfica) nas sequências de ação, Coogler acaba perdendo a oportunidade de criar embates mais fortes e marcantes, principalmente ao lembrarmos dos movimentos de câmera arrojados para filmar as ótimas coreografias nas cenas de luta em Creed: Nascido para Lutar (2015), também dirigido por ele. Se por um lado os duelos das tribos são bem coreografados, com estilos de combate bem definidos e que funcionam como caracterização para as especificações culturais de cada uma, além de uma incrível sequência de ação dentro de um cassino que é seguida por uma ótima perseguição de carros, por outro, o confronto final entre T’Challa e Killmonger acaba como uma oportunidade perdida de o diretor demonstrar toda sua inventividade e qualidade na direção de confrontos corpo a corpo, devido ao uso excessivo de efeitos especiais que deixam as cenas menos pungentes e com uma paleta de cores que prejudica a coreografia do combate.

Contudo, esse deslize não diminui a experiência criada por Coogler, que escolhe fazer um desfecho com uma mensagem política clara e que deixa inúmeras possibilidades narrativas para o futuro de Wakanda e não só de T’Challa, mas de todos os personagens que circundam essa nação colorida, moderna e rica em cultura e tradições. Ao corresponder as expectativas criadas como produto audiovisual, Pantera Negra se assume como um dos filmes de herói mais autorais de todos, extrapolando os limites da tela ao fazer um posicionamento importante para a representatividade na indústria cinematográfica.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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