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A Volta Do Mercenário Tagarela

A volta do Mercenário Tagarela

Ninguém esperava que Deadpool (2016) estreasse nos cinemas alcançado tanto sucesso de bilheteria e uma boa recepção da crítica especializada, como conseguiu. A parte das virtudes que o longa apresenta, a identidade própria que divergia do que era feito até então no gênero de super heróis trouxe um frescor para a indústria, criando novas possibilidades e mostrando que a jornada deste tipo de filme ainda poderia render diferentes abordagens. Agora, carregando uma carga de expectativa bem maior devido ao êxito com que estreou nas telonas, o Mercenário Tagarela retorna para a sequência de seu primeiro filme em uma produção mais consciente do que quer fazer, mostrando que mais do que um filme de super herói, Deadpool 2 (2018) é uma ótima comédia que sustenta todas suas escolhas, sejam elas narrativas ou linguísticas, na amplificação do humor indulgente de seu protagonista.

É justamente a consciência de que o filme é uma grande piada que faz com que os roteiristas Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds, tenham liberdade para não se prenderem a normas narrativas e a formas convencionais de como contar uma história. O próprio primeiro ato do longa, que funciona muito mais como um prólogo, apresenta uma pequena história que, verdadeiramente, não adiciona muito a jornada do herói ou aos acontecimentos do longo no futuro. Existe uma pequena tentativa de criar uma artimanha para relacionar o mercenário com o antagonista do longa, mas que acaba sendo ofuscada pela fluidez dos diálogos e das oportunidades de punchlines que o roteiro cria a todo mundo. Ao abdicar da obrigação de criar bons personagens, o texto acertar ao escolher transformar quase todos os personagens em alvos para uma piada de Deadpool, o que acabando resultando nas melhores interações e dinâmicas de personagens.

É evidente que o roteiro também tenta adicionar mais drama ao filme, tornando-o um pouco mais sóbrio em alguns momentos, mas sua identidade enraizada na comédia escrachada não se exaure em momento algum e acaba desequilibrando o balanço entre drama e comédia. Tal apontamento, não é necessariamente um ponto falho do longa, visto que a comédia consegue sustentar a produção por inteiro, mas é fato que cria um ruído quanto a certos personagens não funcionarem tão bem devido a suas presenças mais dramáticas.

Contudo, Deadpool 2 se esmera na forma como trabalha o humor como regra básica para todos acontecimentos, sejam eles piadas autorreferentes, críticas aos filmes da DC Comics, comentários sociais quanto a cultura e sociedade dos EUA, ou até mesmo as sequências de ação. Inclusive, há uma cena em específico em que o herói utiliza de seus poderes como artimanha em um confronto corpo a corpo com Cable (Josh Brolin) que é impagável! É uma anedota visual que agrega a sequência de ação e demonstra as virtudes que David Leitch tem como diretor deste tipo de cena.  Por outro lado, mesmo que o diretor se saia bem no comando da câmera e na adição do CGI para ampliar confrontos, o filme carece de mais detalhismo na computação gráfica, parecendo que todos os esforços nesse sentido foram designados para a ótima criação de Colossus (Stefan Kapicic) e para a garantia da organicidade dos aspectos biônicos de Cable, deixando algumas cenas do clímax muito artificiais que lembram cutscenes de PlayStation 3.

A relação entre Deadpool e Colossus é novamente explorada na sequência, agora trazendo um maior dinamismo e nível de amizade entre os dois personagens numa de relação cômica de “mentor e pupilo”

De qualquer forma, o filme cumpre com as expectativas por ter a consciência do que fez de melhor em seu antecessor, conseguindo amplificar a melhorar suas virtudes. As constantes quebras da quarta parede, o humor irreverente e desbocado, as cenas de ação quase escatológicas que acabam ficando engraçadas devido ao excesso, as interações com personagens mais sisudos – que no primeiro longa funcionava bem entre Deadpool e Colossus, que acaba se repetindo com frescor e se estendendo também a relação do mercenário com Cable e as diversas referências e piadas a cultura pop como um todo, não se limitando somente a punchlines, mas também a maneira como exploram dos créditos inicias, de certas músicas durante o filme e de objetos específicos existentes nos cenários.

Ainda, as novidades trazidas encaixam muito bem ao universo do mercenário. O nascimento da X-Force e seu destino ao longo do enredo proporcionam uma das melhores subversões de filmes de equipe antes vistos, garantindo momentos hilários e participações especiais muito divertidas. A presença de Dominó (Zazis Beetz) assegura sequências de ação inventivas, divertidas e interessantes que exploram das possibilidades visuais que acontecimentos causados por sorte têm. O jovem Russel (Julian Dennison) se torna ponto central da narrativa e carrega a carga dramática de seu personagem com a naturalidade e confusão de uma criança, trazendo credibilidade para o personagem ao passo que equilibra a jornada com doses homeopáticas de humor ancorado nas erupções de sentimentos, palavrões e asneiras pelas quais ficou famoso em Hunt for The Wilder People (2016).

Dominó e Cable são as novas adições ao filme, que abre espaço para a introdução da X-Force, um super grupo de (anti-)heróis encabeçado por Pool

Se Deadpool 2, assim como seu antecessor, tem muitos méritos e virtudes, quem mais merece aplausos e vangloriações é Ryan Reynolds. Entusiasta com o personagem desde que o deu vida em X-Men Origens: Wolverine (2009), o ator canadense, que já havia participado como produtor do primeiro longa e agora retorna também como roteirista, traz ainda mais coração e alma para o filme, criando um dos super heróis mais carismáticos, engraçados e empáticos do cinema. A coragem, bom humor e sagacidade com que Reynolds se torna Wade Wilson são o que transforma os filmes de Deadpool em uma verdadeira experiência engraçada e divertida, que fica ainda melhor quando vemos o ator se permitir brincar com seu passado em duas das melhores cenas pós-créditos de todos os tempos.

Por fim, a falta de coesão narrativa na passagem do primeiro para o segundo ato não atrapalha o desfecho do longa, que mesmo sem explorar nem remotamente as possibilidades dramáticas ou aprofundar na rica personalidade e na vasta mitologia que Cable tem nos quadrinhos, Deadpool 2 se afirma como uma das melhores comédias dos anos recentes por entender a potencialidade e as possibilidades de humor de seu personagem.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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