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A Polêmica Da Netflix Ressoa Em Cannes

A polêmica da Netflix ressoa em Cannes

A discussão levantada durante a coletiva de imprensa do júri, presidido nesta edição por Pedro Almodóvar, que questionou a postura da Netflix de não estrear seus filmes em salas de cinema, priorizando o streaming direto da plataforma, ganhou força na mídia durante as últimas semanas e vem dividindo opiniões entre especialistas, público e cineastas. Contudo, a questão é bem mais densa do que aparenta e envolve, primordialmente, o desvanecimento da habitual prática de ir ao cinema e a forma como isso acaba impactando a indústria. Por outro lado, pode-se levar em conta fatores econômicos e contemporâneos, como o valor de uma assinatura mensal do serviço comparado ao preço do ingresso e a praticidade de assistir aos filmes no conforto de casa.

Na ocasião, dois filmes com produção da Netflix estavam participando da competição principal, The Meyerowitz Stories, do queridinho indie Noah Baumbach e Okja, do diretor e roteirista sul coreano Bong Joon-Ho. Em momento algum a qualidade dos filmes foi questionada, mas sim suas formas de distribuição e consumo.

 

“A Netflix é uma nova plataforma para oferecer conteúdo pago, o que, em princípio, é bom e enriquecedor. No entanto, esta nova forma de consumo não pode tentar substituir as já existentes, como ir ao cinema, não pode alterar o hábito de espectadores, e acho que esse é o debate agora. Para mim, a solução é simples: as novas plataformas devem respeitar as regras atuais, tais como a existência de janelas de exibição, e cumprir as regras de investimento que já regulam as televisões. É a única maneira de coexistir. Parece um enorme paradoxo dar uma Palma de Ouro ou qualquer outro prêmio a um filme que não pode ser visto na tela grande. Respeito as novas tecnologias, mas enquanto continuar vivo vou defender algo que as novas gerações parecem não conhecer: a capacidade hipnótica de uma tela. Acho que a tela em que vemos um filme pela primeira vez não pode ser parte da nossa mobília, temos que ser pequenos para estar dentro do filme que nos captura” – Pedro Almodóvar sobre a polêmica decisão da Netflix.

 

O cineasta Pedro Ribeiro menciona que essa discussão protagonizada pela Netflix aponta uma certa “crise cultural e artística” responsável por assolar não só a indústria como também os meios de consumo do público e sustenta tal apontamento com um fato que presenciou na própria carreira profissional, “Quando fui curador de um festival em Belo Horizonte, fiquei extremamente triste porque nem mesmo meus colegas de cinema iam às sessões [gratuitas] no Cine Humberto Mauro, mas pediam fervorosamente os links dos filmes online para assistir em casa”. Por outro lado, “na França [onde reside atualmente], não importa o dia da semana, os cinemas [a maioria] ficam lotados para quase todo filme, independente do preço“, demonstrando, talvez, que o problema cultural envolva também uma questão de tradições e costumes locais.

Entre o elenco estrelar de "Okja" (2017) está Tilda Swinton, que contracena com a atriz sul-coreana Seo-Hyun Ahn

Entre o elenco estrelar de “Okja” (2017) está Tilda Swinton, que contracena com a atriz sul-coreana Seo-Hyun Ahn

O Mestre em Comunicação e Doutor em Artes Eduardo de Jesus acrescenta que a polêmica é complexa e se coloca nas mais diversas frentes de discussão: “existe um exercício de poder que se coloca cada vez que os suportes de difusão da produção audiovisual mudam ou se expandem. Com o streaming não é diferente e novas complexidades são inauguradas“. Além da Netflix, existem cerca de 20 ou mais serviços de streaming responsáveis por fomentar a produção independente e autoral, como é o caso do Afroflix. “Acho que a exibição cinematográfica na sala de cinema é uma forma central e muito importante, mas não é única“, complementa o professor que percebe que estamos experimentando um redimensionamento das formas de distribuição que passam também pelas já popularizadas plataformas cotidianas do YouTube e do Vimeo.

Fato é que diante da atual polêmica a organização do Festival de Cannes anunciou que filmes que não tiverem devida circulação em salas francesas não estarão aptos a competir pelo o Palma de Ouro a partir da próxima edição.

Com certeza o assunto não será encerrado e ainda vai permear por outros festivais e premiações mundo afora até que haja alguma harmonia. Percebemos aqui que as discussões são amplas e envolventes, portanto é necessário que todas as partes se façam compreendidas a fim de que as conclusões ou soluções encontradas pela indústria não deixem de reconhecer grandes obras só pelos seus meios de distribuição.


Os vencedores da 70ª edição do Festival de Cannes

Palma de Ouro: The Square

Prêmio Especial de 70º Aniversário: Nicole Kidman

Grande Prêmio do Júri: 120 Batimentos por Minuto

Melhor Diretor: Sofia Coppola — O Estranho que Nós Amamos

Melhor Ator: Joaquin Phoenix — You Were Never Really Here

Melhor Atriz: Diane Kruger — In the Fade

Prêmio do Júri: Loveless

Melhor Roteiro: The Killing of a Sacred Deer / You Were Never Really Here

Câmera de Ouro (Para diretores estreantes): Jeune Femme, de Léonor Serraille

Palma de Ouro – curta-metragem: Xiao Cheng Er Yue

Olho de Ouro (Melhor Documentário): Visages, Villages, de Agnès Varda

Prêmio do Júri Ecumênico: Radiance, de Naomi Kawase

Mostra Um Certo Olhar: A Man of Integrity, de Mohammad Rasoulof

Melhor Diretor: Taylor Sheridan — Wind River

Prêmio do Júri: April’s Daughter, de Michel Franco

Melhor Performance: Jasmine Trinca — Fortunata

Prêmio para a Poesia no Cinema: Barbara, de Mathieu Amalric


rafael bonanno

com 25, é um Jornalista em formação, com o Cinema como grande paixão. seus interesses também se estendem por produção de conteúdo relevante, storytelling, experiências interativas, narrativas transmídia, Fotografia e produção audiovisual.

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