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A Humanidade Como Raio Refratado

A humanidade como raio refratado

O gênero de ficção científica talvez seja um dos mais voláteis da história do cinema por conseguir combinar elementos próprios com quaisquer outros da sétima arte. Seja nas grandiosas franquias de operas espaciais como Star Wars (1977), nos filmes que trafegam no cinema de terror como Alien (1979), ou nos obras que exploram do elemento provocador e reflexivo do gênero para confrontar as mazelas do mundo atual nas projeções cinematográficas, como Blade Runner (1982), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), o sci-fi consegue se manifestar em longas muito diferentes.

Aniquilação (2018), mais novo lançamento da Netflix, que adquiriu os direitos de distribuição da Paramount após o estúdio responsável pela produção do longa desacreditar no potencial de bilheteria do mesmo, combina as diversas vertentes do gênero explorando de convenções narrativas e referências à clássicos, para entregar um filme que abraça questionamentos, ideias e reflexões filosóficas a respeito da humanidade enquanto espécie, convidando o espectador para uma jornada de descobertas e, porque não, transformação.

Responsável pelo excelente Ex Machina: Instinto Artificial (2014), Alex Garland adapta o livro homônimo de Jeff Vandermeer e comanda a direção de, assim como seu antecessor, uma das melhores ficções científicas dos últimos 20 anos. Aqui o diretor volta a mostrar sua coragem e consciência autoral de convidar o espectador a uma jornada instigante e desafiadora, sem didatismos narrativos que tornam explicações e soluções demasiadamente expositivas. É um roteiro que sabe como transformar seu ritmo desacelerado e contemplativo em uma sucessão de descobertas de camadas e novas nuances que só adicionam mais profundidade as personagens e, principalmente, as temáticas e questionamentos que o longa evoca.

Todo conteúdo e estofo que o filme possui exala da jornada de Lena (Natalie Portman), uma bióloga com passado nas Forças Armadas que ao reencontrar seu marido Kane (Oscar Isaac), dado como desaparecido há um ano, se junta a um grupo militar designado à adentrar a mesma área em que seu companheiro havia sido designado para procurar respostas sobre o que lhe teria acontecido. Desta premissa simples, o enredo se expande para uma narrativa que apresenta gradativamente novos acontecimentos e, consequentemente, cometimentos causados pela instigante e magnífica doma que se coloca sobre a área afetada (conhecida como Brilho), reservando surpresas à equipe formada por ótimas personagens femininas.

Assim como a protagonista, todas as coadjuvantes são bem construídas e não se limitam aos seus ramos de expertises, apresentando personalidades, dramas, backgrounds e motivações críveis para tomar atitudes que desencadeiam situações importantes para o enredo. É um trabalho de roteiro consciente ao não explorar dos conhecimentos técnicos de cada uma das personagens como explicações didáticas de eventos científicos, ao mesmo tempo que as relações humanas de cada uma e as mudanças que essas relações sofrem a medida que o grupo adentra a área isolada, agregam ao existencialismo e a jornada dramática de cada uma. Até mesmo uma subtrama amorosa envolvendo a personagem de Portman, que ao longo do filme parece ser descartável e dá a sensação de encher a narrativa desnecessariamente acaba adicionando uma compreensão interessante de uma das ideias e conceitos que o filme levanta. É um dos indícios da natureza autodestrutiva do ser humano, que transforma seu olhar como um prisma refrator de conceitos, noções e pré julgamentos.

O questionamento quanto a essa essência autodestrutiva do ser humano reside em diferentes formas, tanto na maneira com que construímos e desenvolvemos nossas relações afetivas e sociais (como na dinâmica de equipe criada entre o grupo de pesquisadoras e na subtrama amorosa de Lena), como na maneira com que nos relacionamos com o meio ambiente e com o diferente (que tomam a mesma forma no longa, como toda a fauna e flora apresentadas dentro da redoma). É uma criação de um questionamento quanto a dualidade humana, sobretudo na forma com que abordamos o outro, o diferente e o inexplicável como algo amedrontador e perigoso, evocando uma problematização profunda a respeito do olhar do ser humano sobre o mal. Seria o mal algo verdadeiramente e naturalmente tangível ou uma mera projeção dos pensamentos e anseios do ser humano? Ao nos transformarmos, estamos evoluindo e caminhando para frente ou eliminando aquilo que está sendo transformado? Seriam a transformação e a evolução uma consequência natural das relações humanas com o diferente e, porque não, com o extraterrestre? Não que Aniquilação seja um filme de invasões alienígenas ou interplanetárias, mas o vazio de soluções e a exigência de completude dos sentidos que o texto causa no espectador configuram como a melhor forma de demonstrar a angustia do ser humano quanto a falta de uma resposta para perguntas frequentes no imaginário terrestre como “estamos sozinhos no universo?” e “se existem outras raças galáxia a fora, o que elas querem de nós?”.

O trabalho de criação do bioma existente dentro da redoma é impecável, combinando cores, formas e texturas orgânicas à uma edição de som arrebatadora

Como se trata de uma obra cinematográfica, Alex Garland demonstra mais uma vez seu esmero na transformação de significados e conceitos em soluções visuais intrigantes e bonitas. Todo o design de produção é impecável, criando um efeito de refração psicodélico para a redoma, ao mesmo tempo que apresenta fauna e flora criadas para o longa mas que são cheias de vida, movimento, cores e textura, em uma construção orgânica de um bioma capaz de capturar a atenção do espectador que não se atém ao conteúdo filosófico, mas tem a sensibilidade de perceber o apuro estético. O esmero visual também é responsabilidade do ótimo trabalho de Rob Hardy na cinematografia, capturando as diferentes iluminações e cenários, potencializando a densidade das florestas claustrofóbicas e as construções em que as personagens procuram refugio durante a noite em meras prisões para as cientistas. Além do visual, Garland fazassim como em Ex Machina, escolhas corajosas na forma compassada e lenta de ditar o ritmo dos acontecimentos, usando de sequências de ação curtas e pontuais que funcionam para o desenvolvimento do enredo, além de uma sequência de suspense arrebatadora capaz de elevar o batimento cardíaco a níveis desconfortáveis.

Todo o elenco faz um ótimo trabalho com suas personagens. Tessa Thompson, Tuva Novotny, Gina Rodriguez e Jennifer Jason Leigh dão vida a cientistas inteligentes, destemidas, com motivações críveis e personalidades bem apresentadas, além de sustentarem uma dinâmica de equipe muito natural e que ajuda a fluidez da narrativa. Natalie Portman carrega o peso e a complexidade de Aniquilação com leveza, solidão, profundidade e culpa, entregando uma personagem interessante que não só assiste e reage ao ambiente fascinante ao qual adentra com olhos estupefatos, mas também se deixa transformar (ou é transformada) pela vivência dentro da doma, assumindo um protagonismo dentro do desfecho apoteótico do longa.

Da esquerda para a direita: Jennifer Jason Leigh, Natalie Portman, Tuva Novotny, Tessa Thompson e Gina Rodriguez

Toda a plasticidade e exuberância na criação de fauna, flora e nas soluções visuais coloridas do longa, assim como as temáticas contundentes e os questionamentos pungentes do longa, são amplificados pela trilha sonora que inicia com sons de violões e instrumentos de corda lembrando o ritmo folk, dando fluidez e uma certa leveza para a narrativa, mas que durante o segundo ato adentram uma pegada crescente de tecno futurista que se afirma no desfecho impactante do filme, dando traços de epifania.

Deste desfecho, o longa se assume como um excelente sci-fi, rico em conteúdo e forma. De toda sua pretensão em fazer um filme com muito a dizer, Alex Garland entrega uma experiência cinematográfica robusta, madura e que permite diversas interpretações e compreensões. É no encontro de ideias e conceitos com inventividade visual que Aniquilação demonstra uma profundidade capaz de transformar o espectador, assim como a Área X que causa os incidentes motores do enredo faz com as personagens do filme. É a experiência de refratar o que já somos, transformando-nos em uma nova versão de nós mesmos. Uma que, talvez, tenhamos o instinto de temer ou de destruir.


joão dicker

com 22 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha na A Dupla Informação, especializada em assessoria de imprensa e produção de conteúdo em Cultura, Arquitetura, Gastronomia, Design e Criatividade. é o Editor de Conteúdo da ZINT e escreve, majoritariamente, sobre Cinema (sua paixão ao lado de Futebol e Gastronomia).

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