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“A Forma da Água” faz um excelente trabalho em todos os setores possíveis, entregando uma espécie de contos de fadas contemporâneo e místico.


Nas primeiras décadas do século XX, período em que o cinema passou por inúmeras experimentações estéticas, narrativas e tecnológicas, iniciou-se o que pode ser considerado como os primórdios do entendimento de que o cinema possui uma linguagem própria. Desde então, com os avanços da sétima arte enquanto manifestação artística cultural e como indústria, tornou-se claro que um filme depende da linguagem cinematográfica e da forma como ela é trabalhada para garantir a atenção do espectador, assim como construir a atmosfera que uma película procura representar nas telas.

No cinema contemporâneo, Guillermo Del Toro se consagrou como um cineasta que domina diferentes maneiras de impressionar e transportar seu público para dentro da tela de cinema, usando sempre de um cuidado estético apuradíssimo e de uma direção de arte impecável para trazer vida aos contos, histórias e criaturas que cria. Dito isso, nada mais justo do que evidenciar que em seu mais novo longa-metragem, A Forma da Água (2017), o diretor não só entrega um de seus melhores trabalhos técnicos e estéticos, elogio que se estende a toda sua equipe de produção artística, mas também demonstra um total controle criativo e muita maturidade nas decisões criativas de sua nova produção.

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Ambientado nos anos 60, a trama do longa acompanha Eliza Esposito (Sally Hawkins), uma mulher muda que trabalha como faxineira em uma base militar de pesquisas científicas. Em um dia comum de trabalho, ela presencia a chegada de uma criatura humanoide-anfíbia ao laboratório, que passa a ser utilizada como cobaia de testes e exames biológicos. Assim, a mulher passa a se relacionar com a criatura e após presenciar diversos mau tratos e descobrir que ela será morta para dissecação, decide tira-lá da base militar e livra-lá de todos os problemas. Entretanto, sua missão de resgate encontra no chefe de segurança Strickland (Michael Shannon) um implacável e maléfico impedimento.

Apesar de sua premissa simples, que em um primeiro olhar pode ser vista como uma corriqueira história de um romance desajustado, A Forma da Água é um filme repleto de nuances e camadas que se desvendam aos olhos do espectador durante a sua projeção. É verdade que o epicentro da obra é o romance entre a faxineira muda e a criatura anfíbia, mas Del Toro consegue mesclar gêneros cinematográficos com organicidade, dando mais fôlego a narrativa e as simbologias existentes no longa.

É um trabalho que consegue homenagear outros filmes e épocas da sétima arte, mas ao mesmo tempo possui muita identidade na maneira como todos esses elementos se completam e agregam uns aos outros. Ainda, existe um lirismo intrínseco na obra, que logo em sua abertura é introduzido com uma narração em off que também estabelece o tom fantasioso da narrativa, e que junto da evocativa trilha sonora de Alexander Desplat asseguram os tons poéticos que perduram durante toda a projeção.

Toda essa poesia que Del Toro propõe, conta também com o design de produção e uma direção de arte impecáveis. Mesmo que o diretor seja conhecido por trabalhar bem com efeitos práticos, maquiagens e por construir sets fantasiosos extremamente verossímeis e por trabalhar com uma equipe qualificada para tais funções, A Forma da Água é a produção de maior apuro estético em sua filmografia. O design de produção é rico em detalhes, cores e texturas, utilizando de uma paleta de cores focada nos tons de verde e azul, evocando a atmosfera sessentista do longa, ao passo que a iluminação flerta com os jogos de sombras do cinema noir.

A cinematografia de Dan Lausten explora dos tons esverdeados e de filtros que combinam com a paleta de cores para tornar toda a estética do longa turva, além de utilizar de planos mais abertos que captam todo esmero estético existente nos cenários e figurinos. A escolha consoa com a falta de pudor que Del Toro filma os acontecimentos (que vão desde cenas mais gráficas e aflitivas de violência, até momentos tocantes de sensualidade), mostrando que o diretor tem total consciência dos movimentos de câmera e da decupagem necessária para valorizar a plasticidade de seu filme.

No meio de todo o primor estético que enche a tela e os olhos, responsáveis por atrair o espectador para a fábula que é apresentada, há espaço para que o ótimo elenco entregue personagens profundos, mesmo quando não são tão bem construídos. Michael Shannon é intenso na forma com que dá vida a um típico antagonista de fábulas clássicas, utilizando de toda a crueldade possível para enfatizar não só os maus tratos à criatura mas também a todos os pensamentos machistas, racistas e preconceituosos que Strickland dispara a quem lhe convêm.

Michael Shannon (esquerda) dá vida ao maléfico chefe de segurança Strickland, enquanto Octavia Spencer (direita) é responsável pela carismática Zelda, melhor amiga de Eliza Esposito (Sally Hawkins, ao centro)

Michael Stuhlbarg dá profundidade, dualidade e camadas à um personagem que apesar do esforço do roteiro em dar importância na trama, acaba sendo irritante para o espectador por tomar tempo da narrativa que poderia ser mais focada no relacionamento amoroso dos protagonistas. Octavia Spencer se sai bem com o pouco que o roteiro entrega, vivendo a amiga fiel e de personalidade forte de Zelda. Completando a turma dos coadjuvantes, Richard Jenkins faz um artista que se definha nas mudanças e avanços tecnológicos de seu tempo, que ganha substância pela atuação do interprete mas que também é pouco trabalho pelo texto e acaba funcionando como uma ferramenta narrativa para adicionar alguns discursos políticos que soam desnecessários ao longa.

Sally Hawkins brilha trazendo a tona emoções genuínas de uma personagem profunda e com personalidade forte. A atriz transita da ternura no olhar da faxineira nos momentos de encontro com a criatura, da forma leve, doce e graciosa com que se relaciona com a figura humanoide, para momentos de apreensão, desespero, dor e explosões de raivas transmitidas por uma atuação corporal difícil, mas realista. Doug Jones, acostumado a trabalhar com este tipo de papel (assim como fez com Del Toro em O Labirinto do Fauno, de 2006, e Hellboy, de 2004) conclui o trabalho impecável de caracterização do departamento de arte e maquiagem ao trazer emoções a criatura, com uma atuação muito expressiva e rica em linguagem corporal, utilizando de gestos e de olhares para se comunicar com Eliza. Toda a relação entre dois seres de espécies diferentes que não conseguem verbalizar palavras ou se comunicar propriamente por sons, fica ainda mais crível e envolvente pela química e pela trocas de olhares apaixonados, curiosos e profundos de ambos os atores.

Doug Jones e Sally Hawkins são os grandes protagonistas de “A Forma da Água”

Ainda sobra tempo para o diretor homenagear filmes que lhe são queridos e para cultuar o cinema como arte e como forma de comunicação e transmissão de sentimentos. São menções oras sutis, oras mais visíveis de gêneros e estilos diferentes dentro do longa que se completam não como um pastiche de referências, mas como uma metalinguagem enriquecedora para a a aura de fábula que o longa possui. Ao final, A Forma da Água não sofre com os poucos deslizes que seu roteiro apresenta, se edificando como um filme profundo, rico em detalhes e nuances que ganham vida na tela graças a genialidade de um cineasta que mostra, mais uma vez em sua filmografia, que o cinema pode ser poesia audiovisual.


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