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Crítica / “Tempo”, de M. Night Shyamalan (2021)

[tempo de leitura: 4 minutos]

Ao longo de sua carreira, alçada a alta expectativa após O Sexto Sentido (1999) e frequentemente questionada a cada novo filme que vinha ao mundo, M. Night Shyamalan se manteve fiel a uma essência de cinema e visão de mundo que lhe parecem fundamentais, até mesmo em obras “encomendadas” como O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013).

Esse mote principal que guia o seu trabalho está ligado a uma visão de como a vida por si só e a simples existência já são extraordinárias – uma visão que ele gosta de trabalhar pela via da tomada de consciência das personagens em experiências que tangenciam o místico e, porque não, o sobrenatural.

Tempo reafirma a disposição do diretor a estes temas em mais um confronto com uma “anomalia natural” (como um personagem verbaliza em dado momento da trama), mas, desta vez, Shyamalan busca uma encenação um pouco mais radical e propõe, então, um jogo de provocação sensorial muito eficiente.

O que o novo filme faz muito bem desde a primeira cena é dar conta de outra virtude espalhada pela filmografia de seu realizador: a capacidade de construir um drama forte a partir de relações de intimidade entre as personagens.

É deste intimismo que acompanhamos uma família formada por um casal em crise (interpretados por Gael Garcia Bernal e Vicky Krieps) que se hospeda em um resort luxuoso, com seus dois filhos, a fim de superar o momento caótico da relação. Ao aceitarem a sugestão de passar uma tarde em uma praia paradisíaca afastada, a família se vê presa nesse reduto de beleza natural com outros pequenos grupos e casais, tendo que lidar com questões intrínsecas de cada um a partir de uma misteriosa e sinistra revelação: o tempo passa acelerado naquela praia e todos ali estão envelhecendo muito mais rápido do que o normal.

Nesse sentido, Shyamalan faz um filme de terror que não se pauta nos jump scares ou em uma atmosfera opressora. Em Tempo, o medo é alcançado a partir de uma das maiores dores do ser humano: justamente a passagem acelerada de tempo, os seus efeitos em nós e a iminência da morte. Porém, o principal anseio não é tanto a chegada do fim, mas sim a consciência de que não será possível viver o presente antes dele.

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cena de Tempo, novo filme de M. N ight Shyamalan

Convergindo as duas virtudes máximas já citadas aqui, os minutos iniciais tomam algum tempo para apresentar as personagens que ficarão isoladas em conjunto na praia só para que o espectador entenda a dinâmica de cada família e, minimamente, algumas características importantes de cada um dos indivíduos.

Deste primeiro encontro em diante fica evidente que a profundidade de Tempo não está nos diálogos inócuos que não discutem a passagem da vida ou a perda de oportunidades de vivermos bons momentos, mas sim na sequência ininterrupta de novas situações de provação e superação que as personagens vão passando, sempre trazendo uma resolução de reconciliação entre algumas delas.

O mais interessante é que Shyamalan entende a sensação de desnorteio das personagens e encontra uma forma de dar vida a ela por meio da encenação. A câmera do diretor pivota a todo momento, entre idas e vindas das extremidades da praia trafegando ao redor dos rostos atônitos de incompreensão dos atores.

Este uso de close-ups mais pontual, sempre capturando um elenco muito bem alinhado (especialmente Bernal e Krieps, assim como Alex Wolff e Thomasin McKenzie, que vivem as versões adolescentes das crianças) asseguram o intimismo, a humanidade e a verdade para toda essa visão sobrenatural e fantasiosa que Shyamalan constrói naquela ambientação.

Ademais, a forma como ele enquadra é sempre pautada em uma deformação do ambiente por meio do foco e de um jogo com a profundidade de campo, brincando com as dimensões do que está em plano e causando uma forte sensação de estranhamento visual.

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Alex Wolff e Thomasin McKenzie vivem dupla de irmãos que envelhecem rapidamente em “Tempo”.

Já nos minutos finais, Tempo tem um encerramento conflituoso porque o diretor e roteirista encontra um desfecho tocante, íntimo e bonito que arremata tanto a temática quanto os acontecimentos do enredo, mas segue em sequência para uma exposição desnecessariamente.

Uma pena porque Shyamalan é dos diretores que mais abraçam a fantasia e o ficcional como um elemento criativo e provocativo em seus filmes, algo que sobretudo o cinema hollywoodiano tem precisado cada vez mais frente a mesmice de longas que prezam por uma estética clean e realista pouco inspirada.

Mesmo assim, Tempo mostra que talvez seja mesmo hora de termos um pouco mais de fé no cinema e aproveitarmos mais de filmes de realizadores como Shyamalan, antes que estejamos velhos demais para percebermos que deixamos escapar o valor de bons momentos por motivos bobos.

joão dicker

com 24 anos, é formado em Jornalismo pela PUC Minas e trabalha com Assessoria de Imprensa e Mídias Sociais. é o Editor de Conteúdo da ZINT. Segue um estudo e exercício constante como Crítico de Cinema, mantendo sua paixão pela Sétima Arte.

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