Crítica – “Entre Tempos”

Crítica – “Entre Tempos”
[tempo de leitura: 2 minutos]

“ – Não sei porque me lembro assim.

  – Porque as lembranças mentem. Fazem coisas que não são boas parecerem agradáveis. É o que faz a vida ser suportável.

 – Não acho que as lembranças fazem a vida parecer melhor. Acredito que elas já eram boas, mas não percebemos isso na hora porque não prestamos atenção.”

 

O diálogo evidencia um claro contraste entre duas visões de mundo: uma mais negativa, outra otimista. Essa divergência de pontos de vista é a principal discrepância entre os protagonistas do longa italiano Entre Tempos, dirigido por Valerio Mieli. O filme é centrado na história de amor dos dois personagens (chamados de “Ele” e “Ela”), que se conhecem em uma festa. O romance não demora a se desenrolar e, em pouco tempo, o casal já mora junto – justamente na casa onde Ele (Luca Marinelli) passou sua traumática infância. É tudo uma questão de ponto de vista: enquanto Ela (Linda Caridi) diz que apenas o presente existe, Ele afirma que o agora não é real. Já passou.

O protagonista apresenta grandes dificuldades em se desvencilhar do seu passado, marcado principalmente pelo seu relacionamento turbulento com uma garota ruiva e pelas brigas horrendas entre seus pais. Ela, no entanto, parece ter dificuldade em se recordar de momentos tristes, o que reflete no seu estado de espírito (aparentemente) estável e alegre. A partir do envolvimento entre os dois personagens, esses sentimentos ficam cada vez mais difusos – em certo momento, não se sabe mais quem é o verdadeiro otimista da relação.

Os fantasmas do passado, as incertezas do presente e o medo do que está por vir. Todas estas angústias atordoam os personagens principais, que precisam descobrir a melhor forma de lidar com as próprias inseguranças e, claro, com diversas questões que emergem a partir do relacionamento. “As coisas são belas porque acabam ou elas seriam menos belas justamente por isso?” – essa é  uma das perguntas centrais do longa.

Destaca-se a atuação de Linda Caridi, que emana sutileza e naturalidade. Em algumas cenas, os personagens principais podem parecer irritantes (especialmente Ele), mas a trama não deixa de ser envolvente. A trilha sonora auxilia na ambientação e nos faz mergulhar mais e mais na trama. As paisagens italianas, como sempre, são os melhores cenários possíveis para o desenrolar desse romance.

A direção de Mieli é acertada: todas as escolhas de planos e lentes auxiliam a passar o sentimento de impermanência da memória. Em uma das cenas, por exemplo, a cor do vestido da protagonista muda – uma hora é branco, em outro momento vai ganhando cor. As lembranças mentem.

Quem espera uma história agitada e repleta de reviravoltas pode se decepcionar: Entre Tempos é justamente sobre o banal. A beleza do filme está, principalmente, em sua forma e na subjetividade dos protagonistas. É um verdadeiro mergulho em direção aos nossos anseios mais profundos, sem respostas prontas ou grandes clichês.

carolina cassese

estudante de Jornalismo, feminista, louca dos gatos, geminiana de sol e alma. apaixonada por mudanças e pelas palavras.

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