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"Até O Fim", novo filme de Ary Rosa e Glenda Nicácio, toma a representatividade como mote e a trabalha com os corpos errantes do ótimo elenco.

“Se a gente não sabe se ama

Se a gente não sabe se quer

Não vai saciar essa chama

Se não decifrar o que é”

 

A estrofe da música Até o Fim, de Maria Bethânia, ilustra muito do que é a motivação principal do novo filme homônimo de Ary Rosa e Glenda Nicácio: quatro mulheres de uma mesma família que se encontram para desenterrar memórias antigas e segredos mal resolvidos. A falta de foco e a instabilidade da imagem na cena inicial prenuncia o passado desalinhado das personagens.

A presença de corpos diversos na tela do filme Até o Fim, sejam eles pretos, trans ou fora dos padrões métricos impostos, contraria o olhar adestrado de quem está acostumado com a brancura e a heteronormatividade historicamente recorrente na frente e por trás das câmeras do cinema. “Você não tem noção: ser quem você é em um mundo que diz o tempo todo o que você não é. Você não sabe o que é ser uma mulher preta no cinema.”, diria Bel, personagem da história.

A única locação do longa, um quiosque de orla encardido, é palco de um evento que motiva o reencontro após 15 anos: a celebração do rato morto. O roedor que aparece sem vida no porão metaforiza a imagem do moribundo patriarca da família, que nunca aparece em cena, mas que atravessa toda a narrativa. As anfitriãs do encontro são Geralda (Wal Diaz), Rose (Arlete Dias), Bel (Maíra Azevedo) e Vilmar (Jenny Muller). Quatro parentes que tiveram seus laços familiares arranhados desde a morte da mãe. Geralda, a dona do quiosque, foi a única a ficar na cidade para cuidar do pai, enquanto as outras tentaram a sorte em outros cantos.

Reunidas novamente, as diferenças e ressentimentos das personagens de Até O Fim guiam as interações iniciais, além de que tais sentimentos são muitas vezes transmitidos pela embriaguez da câmera inquieta e pelas transgressões visuais, como o recurso da tela dividida. A conversa, em sua substância, se torna uma reconfiguração das relações em uma performance de troca. As mágoas são muito mais do que intrigas familiares, elas são reflexo das cicatrizes por conta das violências raciais e de gênero vividas pelas personagens.

A proporção mais fechada no aspecto do quadro contribui para o holofote nas personagens, ao passo que também as aprisionam em memórias pungentes com essa figura paterna e peçonhenta. As violências obscuras causadas pelo pai servem como eufemismo para os contos de terror narrados por Geralda e aclimatados com a queda de energia no quiosque.

Os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio projetam o Recôncavo Baiano em filmes ufanistas e cheios de intimidade. Até o Fim fala sobre nossas mães, avós, irmãs e amigas de forma forte e arrebatadora. Uma conversa capaz de fazer com que, no 23º Festival de Cinema de Tiradentes, a plateia na exibição de estreia se emocionasse a ponto de aplaudir o filme de pé durante os créditos finais. Este que vos escreve foi um deles.

“É que o amor não se dissolve assim

Sem dor, se não for até o fim”

LANÇAMENTO
O longa Até O Fim ficou disponibilizado gratuitamente até o dia 02 de julho no canal do Youtube da Produtora Rosza Filmes, formada por Ary Rosa e Glenda Nicácio. Ainda não há data de estreia confirmada para o filme no circuito brasileiro de exibição.

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