Na Mise En Scène | A Direção De Arte Em “Homecoming”

Na Mise en Scène | A direção de arte em “Homecoming”

Este foi um ano em que me dediquei muito a consumir produtos feitos para televisão. Não estou nada em dia com os lançamentos do cinema, mas as séries de 2018 estão devidamente contempladas. No entanto, eventualmente, bons seriados (desses inacreditáveis de maravilhosos, que até lembram o cinema autoral, com detalhes e recursos de linguagem muito bem pensados) se esgotam e eu estava em um estado de completo abandono. Aí, rolando o Twitter, vi uma crítica com a seguinte chamada: “Pare o que você está fazendo e vá assistir Homecoming. E assim fiz.

Finalmente chegou o dia em que gastarei toda a minha empolgação com essa série! O conselho despretensioso que vi na timeline me proporcionou uma das melhores surpresas audiovisuais do ano. Homecoming é a nova produção da Amazon, criada por Sam Esmail, Micah Bloomberg e Eli Horowitz. Esmail, que também assina a direção, tem em seu currículo nada mais que o roteiro de sucesso de Mr. Robot (2015–). A série é protagonizada por Julia Roberts, estrela do cinema que se arriscou, pela primeira vez, a assumir o papel principal em um produto para TV. A atriz interpreta Heidi Bergman, uma psicóloga que trabalha em uma espécie de casa de reabilitação para ex-soldados do exército americano, localizada na Flórida, que oferece um tratamento experimental para ajudar esses homens a retomar a vida civil. O estabelecimento é uma iniciativa da Geist, uma empresa de produtos químicos. Enquanto Heidi entrevista seus pacientes, ela desenvolve uma relação próxima com Walter Cruz (Stephan James), um dos militares em tratamento e a partir daí, ela começa a perceber que Homecoming pode não ser um local tentando recuperar soldados de traumas de guerra.

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Acho que esse é o máximo que podemos falar sobre a sinopse nesse primeiro momento, já que se trata de um misterioso suspense psicológico-maluco-não-dá-pra-entender-nada-até-o-3º-episódio. Nosso objetivo aqui é falar um pouco sobre como o projeto de arte, elaborado por Anastasia White (que, curiosamente, fazia parte da equipe de arte de Moonrise Kingdom) é extremamente meticuloso e preciso para cada momento, fazendo com que a série seja misteriosa em todos os aspectos – roteiro, trilha, atuação, montagem, fotografia, linguagem e direção de arte.

A narrativa transita entre passado e presente para tentar desvendar algo que não deu exatamente certo com HomecomingHeidi, após seu período como terapeuta no local, sofreu uma grave perda de memória e não se lembra de absolutamente nada do tempo em que esteve lá. Os dois momentos em que a série acontece são separados com clareza pela linguagem: o presente acontece todo no formato 4:3 (quadrado) e o passado, em wide (o que é absolutamente subversivo, já que o cinema costuma fazer exatamente o contrário). O primeiro aspecto que salta aos olhos é a cenografia do instituto Homecoming: linhas retas, formas geométricas perfeitas, simetria milimetricamente calculada – tudo é tão perfeito e limpo que parece cenário de um videogame. O edifício se ergue a partir de uma lanchonete central, num conceito aberto em que é possível ver o andar de cima (e o de cima vê o de baixo). O espaço é octogonal e essa configuração cria um espaço enorme, com pouca privacidade.

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Em meu último texto por aqui, eu disse que falaria sobre como acredito que se naturaliza a arte através do caos e Homecoming é o contra-exemplo perfeito para meu ponto: a ordem extremamente rigorosa da cenografia nos dá a impressão de que aquilo não é real. E esse é, de fato, o objetivo: fazer com que o espectador sinta que aquele é um ambiente impessoal, questionável, estranho. As cores são terrosas e acabam dando um aspecto envelhecido para o espaço – o que é estranhíssimo, já que a estrutura em si é bem moderna, até lembra um pouco a cara de 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968). Inclusive, é possível identificar outras referências claras à estética de Stanley Kubrick, tanto na linguagem da câmera quanto no design de produção, para retratar o instituto – as formas rígidas e perfeitas, o enquadramento centralizado e simétrico, a escolha de cores e texturas, tudo isso lembra bastante a cinematografia do diretor clássico.

Ainda sobre o instituto Homecoming, temos o escritório de Heidi: um ambiente também octogonal, com texturas que até tentam criar algum aconchego, mas com a mesma simetria bizarra, formas duras e com elementos que não te deixam esquecer da frieza sutil que permeia o local. Dois vasos de plantas compõem o ambiente e dão a sensação de que ela trabalha ali há anos – o que é só mesmo um disfarce. A designer de produção contou em uma entrevista que escolheu o octógono por ser um “círculo quebrado”, simbolizando a interrupção, a perda da linearidade da memória. A personagem de Julia Roberts, para completar, é extremamente obsessiva. Os objetos de sua mesa estão sempre no mesmo lugar, na mesma posição, ordenados da mesma forma – e, quando não estão, bom sinal não é. Nesse ambiente, existe um aquário de peixes muito simbólico e sensorial – a calmaria com que vivem as criaturas aquáticas ali é um elemento de contraste muito angustiante, já que se trata de um consultório psiquiátrico, especializado em receber ex-soldados traumatizados pelos horrores da guerra.

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Julia Roberts e Stephen James contracenam no consultório da protagonista

O simbolismo também está alinhado com a forma predominante da cenografia: o octógono dá essa impressão de aquário gigante, em que todos estão sendo observados e os peixes, ali, funcionam como uma metonímia. A paleta de cores transita entre tons terrosos, escala de cinza e verde – e o aquário é um ponto de destaque quase gritante no cenário. Tudo parece mais um projeto arquitetônico em 3D do que exatamente uma casa de reabilitação agradável e hospitaleira para ex-militares. Além do consultório, há também o dormitório dos militares – esse ambiente também é elaborado num equilíbrio irônico entre impessoalidade e individualidade. A cenografia salpica migalhas de sensação de “casa”, através de elementos que tragam essa impressão de moradia confortável. Cabeceira de cama estofada, cortinas, quadros decorativos são recursos para mascarar o que realmente acontece ali.

Antes de falar sobre a estética escolhida para retratar o presente, preciso achar uma brecha nesse texto para louvar a atuação de Julia Roberts. O trabalho como protagonista é cheio de força e potência, muito poderoso, muito bem estudado e executado. Imagino que seja um desafio enorme trocar a energia da sua personagem para entrar no clima de dois momentos temporais distintos e a forma como a atriz se transforma e transparece essa mudança é coisa de gênio. A evolução brilhante do arco dramático precisava mesmo de uma protagonista do porte de Roberts para explorar todo seu potencial. Existe uma cena em que novos militares chegam ao instituto Homecoming e Heidi é convidada a fazer as honras da casa. Prestem muita atenção quando essa cena começar, é tudo o que eu peço. Enfim, voltemos.

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No presente, temos a escolha técnica de retratar tudo em formato quadrado, com duas bordas pretas enormes nas laterais. Nesse contexto, Heidi não se lembra do que houve em Homecoming ou sequer que trabalhou em um lugar com esse nome. De psicóloga, a protagonista passa a ser garçonete – e nós vamos começar a falar da direção de arte por aí. Estamos falando de um restaurante com um logo bem patético que agora não me lembro se é uma foca ou um peixe, na beira de um píer, com texturas de madeira, meio decadente. O brilhantismo está na paleta de cores – que é, basicamente, a mesma da timeline do passado, só que utilizando os tons em escalas desbotadas, lavadas, apagadas. O que a arte procura comunicar, utilizando cenografia e cores como recurso, é que se trata de um espaço meio deprimente, genérico, sem personalidade e vida – assim com a protagonista que, nesse momento, nem se lembra de sua própria trajetória. O restaurante parece um lugar em que Heidi está apenas existindo, cumprindo seu papel social e girando as engrenagens da economia – mais nada. É interessante contrastar os ambientes de trabalho em que a protagonista é inserida e como a direção de arte joga a favor da construção dessa dissociação de identidade. No consultório, Heidi é quase um ornamento do espaço – figurino extremamente alinhado com o design da sala, tons vibrantes, texturas elaboradas. No restaurante, nada do que ela veste e nada do que ela faz parece encaixar em quem ela é.

O desenrolar do mistério é conduzido por Thomas Carrasco (Shea Whigham), um investigador meio bobão que se propõe a ir atrás de Heidi para entender o que houve com Homecoming. Esse personagem é, basicamente, a representação do espectador na narrativa – tudo que sabemos, é tudo que ele sabe também. No entanto, por mais que a compreensão do plot só venha perto do fim da temporada, a série usa e abusa de simbolismos para nos dar pistas. Com o desenrolar do suspense, o tom de paranoia cresce em um dos cobaias e ele começa a questionar se estão mesmo na Flórida. A direção de arte, então, posiciona estrategicamente elementos tropicais que lembrem o estado litorâneo – o abacaxi é um deles. Há abacaxis por toda parte.

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Além de causar a confusão mental nos próprios pacientes, essa incerteza se estende ao espectador também. O fato de haver imagens de abacaxis espalhadas por todo instituto aponta para um desespero em reforçar algo – que não se sabe se é real ou não. Além disso, a protagonista é frequentemente cercada por imagens de pássaros e peixes, como um pelicano que rodeia toda a instituição, sempre emitindo um barulho muito bizarro – pássaros também rodeiam o restaurante em que Heidi trabalha no presente. É quase como um insulto – eles podem voar, mas ela está presa (no edifício e na ausência de sua memória). Além disso, a evolução da investigação ao longo dos episódios é acompanhada por uma sensação de “unboxing” – como se houvesse caixas dentro de outras caixas e cada vez que abrimos uma, descobrimos uma nova pergunta sem resposta. A própria cinematografia da série faz uso desse recurso: o presente, retratado em formato quadrado, funciona quase como um recorte do passado, que aparece sempre em wide. Preciso parar por aqui porque estou a um fiapo de dar spoiler.

Tudo isso sem nem entrar no mérito de falar sobre os planos sequência surpreendentes de Sam Esmail, que parece ser um fã do recurso e o executa com maestria. A câmera, em determinados momentos, acompanha o movimento dos personagens quase que como um jogo, é inacreditável. Para os cinéfilos, a série é um prato cheio de referências – rigor estético de Kubrick, planos que lembram Um Corpo Que Cai (1958) do mestre Alfred Hitchcock e por aí vai. É tudo muito bom.

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Pronto, agora que gastei todo o meu hype, espero que vocês tenham se interessado pelo que essa série tem a oferecer. Sinto que, cada vez mais, o formato de seriado se aproxima dos conceitos cinematográficos – o que tem enriquecido muito o trabalho audiovisual para televisão e tem levado o entretenimento a outro lugar, que ainda não sabemos direito qual é mas que me anima muito. Lembre-se sempre de se sentir à vontade para trocar uma ideia sobre Homecoming, Julia Roberts, teorias da conspiração ou sobre qualquer outra coisa!

Até a próxima!

raquel almeida

sempre atenta aos pequenos detalhes de todas as coisas. mineira, 24 anos, formada em Comunicação e fã de Cinema pop.

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